LOBOS

Sou, na verdade, o Lobo da Estepe, como me digo tantas vezes – aquele animal extraviado que não encontra abrigo nem na alegria nem alimento num mundo que lhe é estranho e incompreensível

Herman Hesse

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Crónicas da RUA NOVA

 RUA NOVA

29/03/2011
MESTRE JOÃO nasceu HÁ 90 anos

1921/2011
Mestre JOÃO
O GRIZÉU
O João ALGRAVIO
O POETA
Como RETALHOS, pedaços de VIDA perdida na imensidão do TEMPO-tento desta FORMA simples;tão, SIMPLES como o HOMENAGEADO. 
Uma imensidão de nomes me habituei a ouvir chamar sobre este homem que de uma forma natural e imperceptível vi crescer, amadurecer e chegar aos 90 anos como uma METAMORFOSE KAFKIANA. 
Os dias, as datas especiais do ANO sucedem-se com um RITMO ditado pelos GESTOS que todos fazemos no- Diariamente. Num levantar constante de hábitos por vezes enfadonhos...lavar, comer, IR e deitar outra vez. Seres ESTRANHOS, VIVÊNCIAS "PARIDAS" duma macabra e e apetitosa FELICIDADE de vir a este MUNDO tão especial como especiais nós somos TODOS.



O Poeta foi uma das "PERSONAGENS HABITANTES" do meu MUNDO.
Como a natureza é PERFEITA nas suas MENSAGENS. Não me lembro do POETA NOVO... os próximos  não nos transmitem sensações de idade. Mas, recordo todos os acontecimentos marcantes da VIDA deste HOMEM simples e Justo. Tão "justo" era que "caía ", por vezes,  no pior dos Vícios: o de AGRADAR a “GREGOS e a TROIANOS". Recordo que prometia ir no próximo  DOMINGO trabalhar para dois ou 3 locais . Invariavelmente, um ou 2 dos que o esperavam ficavam de MÃOS a abanar.


 
É mesmo o único pecado que recordo deste HOMEM trabalhador de DOMINGOS e dias SANTOS, como se dizia no ALENTEJO nos TEMPOS do TRABALHO. Lembro, também, quando Mestre João passava ao fim do dia na sua MOTA JOANINHA pelo largo da ALDEIA. Era Sábado ...ou DOMINGO-ERAM os TEMPOS a seguir à REVOLUÇÃO, tempos de aspirações BURGUESAS. Todos, afinal, queriam ser iguais aos que antes eram apelidados de RICOS, mesmo que os princípios mais puros da REVOLUÇÃO tivessem como bandeira a luta contra esses estilos de vida. 

Mestre JOÃO passava e era apelidado  de FASCISTA ou de escravo ...que contradição. Porque trabalhava SEMPRE!...DOMINGOS e dias Santos. Eu estava PRESENTE, muitas das VEZES ouvi esses LAMENTOS a meia voz. Os ARES da REVOLUÇÃO trouxeram a NOVA...TRABALHAR é algo desprestigiante, naqueles TEMPOS assim como HOJE é perigoso ser TRABALHADOR de verdade.
Mas, o POETA  GRIZÉU lá ia indo, lá vai INDO, sempre igual a si Próprio.
As imagens que retenho e que agora me povoam o imaginário para completar este artigo e especialmente para colorir um TEMPO importante da vida de um TRABALHADOR e FELIZ ALENTEJANO, são todas elas imagens de boa DISPOSIÇÃO. Foi SEMPRE um HOMEM com um espírito POSITIVO. Espírito esse que nunca o traiu. Naturalmente, como toda a GENTE tinha SONHOS e talvez também MEDOS. Mas nunca foi Ambicioso em demasia tal como nunca foi VAIDOSO, pecado este que nos faz ser o que não SOMOS. Por ser como É!! ainda hoje o MESTRE VIVE um pouco nervoso porém, respingão. Apagaram-se-lhe das MEMÓRIAS os ROSTOS e os ACONTECIMENTOS.

 Eu RECORDO por ele todos os TEMPOS de ANIMAÇÃO em que participou. No TEATRO, nos RANCHOS, na BANDA ORQUESTRA ARCOENSE: TOCADOR de VIOLA e CONCERTINA MEDÍOCRE, mas com uma entrega de coração de estar PRESENTE, VIVER e PARTILHAR numa CULTURA Social "SÃ". Ele esteve sempre em TODAS e HOJE é um dos ÚLTIMOS rapazes dos anos 30 e 40 que VIVE sobre a TERRA.
Nunca foi de muitas palavras ou assuntos. GOSTOU sempre da PINGA e dos petiscos das TABERNAS que, como JARDINS, decoravam os 4 cantos dos ARCOS.
Este é o MEU PAI! Um ser estranho aos meus OLHOS. Um HOMEM que eu não quis imitar mas que teve uma influência extraordinário na estrutura de MIM-HOJE como PESSOA e PROFISSIONAL.
Dele HERDEI a certeza de que se há ALGUMA coisa SAGRADA neste MUNDO, essa coisa é o TRABALHO. 
Hoje pratico essa VERDADE. BUFO ou não é algo que não me preocupa ser. Jamais faltar uma hora que seja no meu LOCAL de trabalho. Espero manter o meu RECORD, que também é o do POETA meu PAI. Nunca estar verdadeiramente DOENTE para não poder FALTAR ao TRABALHO.
OBRIGADO, PAI, por tudo e que continue, sei que NÃO por muito TEMPO, a beber o COPITO de VINHO TINTO todos os DIAS.





GRATO ao HOMEM da MOTA-JOANINHA. 
Ao Homem e à PESSOA de JOÃO ALGRAVIO. João GRIZÉU. O POETA e MESTRE na VIDA.
TODOS IGUAIS!
HOJE também tive a FELICIDADE de perceber olhando para o LADO nas pessoas aderentes ao MEU BLOGUE que a LUZIA CANDEIAS também "ABRAÇOU" este mundo da INTERNET, não é de admirar- ESTA personagem que conheço há muitos anos, apesar de poucas vezes falarmos e também o seu talento da ESCRITA o qual engrandece com as narrativas que faz com os "TRAPOS" e a máquina de costura. 

"HOMENAGEM ao meu avô VENTURA" 
dimensões-48x79 cm
animação formal em tecido e com tecido
Esta é uma obra que me foi oferecida no longínquo ano de 1986 pela LUZIA, foi um mau negócio para ela , ofereceu-me este trabalho cheio de criatividade em troca de uma simples moldura de madeira com um vidro. Vejam bem a simplicidade e o talento desta MULHER.
Uma ARTISTA COMPLETA LUZIA, muito feliz pelo RE-ENCONTRO. AGRADEÇO o contacto pois vou precisar da sua sensibilidade para juntar a este pequeno MUNDO que construí... muitas das suas recordações e também da sua obra.
FICO à  espera "Querida conterrânea" de me contactar para um dos seguintes endereços electrónicos.
pensadorlobo@clix.pt
pensadorlobo@gmail.com



Serve esta IMAGEM para RESCREVER uma preocupação que me tem ACOMPANHADO desde o momento que "CONSTRUÍ" este Blogue na Net. Tudo tem crescido como uma BOLA de NEVE, tive algumas colaborações que foram importantíssimas no desenrolar da "NOVELA". Muito contra a minha PERSONALIDADE, ACTUANTE mas recatada, dirigi-me a PESSOAS a pedir a colaboração. Na sua generalidade, são pessoas que faziam desde sempre parte do meu MUNDO de AFECTOS. Solicitei outras que nunca estiveram próximas de MIM. Quero dizer com isto que não faço diferenciações neste pequeno MUNDO de fragmentos que estou a "COSTURAR". Respeito que outras e foram poucas se recusem a PARTICIPAR, estão no seu DIREITO. Sei também que não é fácil perceber este novo MUNDO das novas TECNOLOGIAS para gerações como a MINHA e as anteriores. AÍ terão que ser os netos a darem uma AJUDA aos FAMILIARES para poderem com uma lágrima nos olhos recordar pedaços também das suas VIDAS.
"TODOS IGUAIS" é o LEMA, e se me ESQUECI de nomes ou FAMÍLIAS é mesmo porque não me RECORDO, POR ESSE MOTIVO TAMBÉM, venho desde o Princípio a pedir a colaboração de TODOS os que com sensibilidade e GRATIDÃO queiram deixar registado no TEMPO a passagem de PESSOAS que lhe são queridas e já não estão entre nós.
É tudo feito com EMOÇÃO, Respeito e IGUALDADE. E de BORLA..poucas coisas já se fazem de BORLA neste MUNDO CONFUSO que estamos a VIVER.
A última coisa que quero  é ser VISTO como um CHATO e incomodar quem quer que seja.
DESCULPEM lá mais esta coisinha.
TODOS IGUAIS, Todas as Mãos são IGUAIS-marcadas pelo TRABALHO, pelo Sonho ou pelos AZARES da VIDA.
As Mãos do PAULO marcadas por tempos de repetição, as DO Cabaço que cortam com HABILIDADE as RASPAS do PRESUNTO, as RUGAS AMARGAS do meu AMIGO CANDEIAS-o ABRAÇO do BARRADAS/NARCISO, a FORÇA da juventude do MÚSICO TOMÁS, a atitude lutadora da GUIDA...o TALENTO e SABER do CINEASTA JÚLIO ESPADANAL e eu PROFESSOR, ARTISTA e CAVADOR, feliz. TODOS somos iguais na VIDA e no Final. Só nos RESTA a HUMILDADE da COMUNHÃO  a necessidade de SOBREVIVÊNCIA. A continuação do SONHO.
Mas também o AZEITEEEE, tem longas Histórias para CONTAR. Ontem dia 27 de MARÇO tive o PRAZER de ABRAÇAR e partilhar uns momentos com esta figura HISTÓRICA "duZARCOS". MAIS tarde deixarei aqui o filme do MOMENTO. Hoje ficam as imagens fixas de tão NOBRE CRIATURA e SIMPLES como os verdadeiros homens devem ser.
26/03/2011 







Lição FINAL



E o HOMEM-MORTO abriu a MALA da VIDA, dourada, brilhantemente enganadora...E nada restava lá dentro da AMBIÇÃO e da VAIDADE, das VIAGENS e do DINHEIRO amealhado. Nada restava do OURO e  das pedras preciosas roubadas às entranhas da Mãe NATUREZA...nada de nada RESTAVA!
-A MALA estava VAZIA e a sua ALMA errante sentia-se agora confusa e ainda mais SÓ pela ETERNIDADE começada.



...EM COMUM, temos uma HISTÓRIA . As Mãos, as saudades e os ROSTOS cheios de MARCAS de um TEMPO VIVIDO....em COMUM.

 OBRIGADO!
...e nas MÃOS desta rapaziada está o FUTURO, hoje PRESENTE.
Júlio-Luís Armário-neto do Angelino e filho do Tozé
Olinda cima (talvez 1990)



1940 e poucos 
Local, CAMPO de FUTEBOL da HERDADINHA
zona da casa do Povo ou mais nas traseiras desta.

Identifico em CIMA- O ROMÃO (5º a contar da esq.), SÓDÓ (6º)-O MEU TIO VENTURA (7º)-O Alfredo carpinteiro (penúltimo) e o MEU  TIO SAPATÊRO (último).
Em Baixo reconheço o BORREGA BRANCA (1º)- O meu PAI (4º)-João Pé-coxinho (8º)
Uma das primeiras EQUIPAS de FUTEBOL doZARCOS
De BORLA e com o CORAÇÃO!

A CATARINA RAMOS é da TERRA barrenta de vermelho vestida, de sangue pintado de muitas gerações, "SER" nascido da    MISTURA de SANGUE ALENTEJANO-ÍNDIO Brasileiro com odor a AMAZÓNIA...impregnada de "SABEDORIAS" ancestrais. Nas palavras lavra o TEMPO presente e o FUTURO  (AQUI) ali tão perto.
por esse MOTIVO também ela pertence a esta terra.




A carta…

Querido... destino
Assegura-me aqui e agora
Que nunca me arrependerei, um dia que seja
Que nunca quererei regressar, a este momento
Que esta chama que flameja
Neste coração, sem que a veja
É o mais puro sentimento…

Promete-me que ao escrever estas linhas
Neste papel gasto… Numa só tentativa…
Conseguirei dizer tudo, por palavras minhas…
Conseguirei contar a história da minha vida...

Prova-me que estou certa
Prova-me que serei capaz de o fazer
E se acreditar…
Escrever-te-ei!
Se não acreditar…
Esquecerei…
E esta carta aberta
Será um enigma por entender…

Hoje foi o dia em que decidi
O dia em que fiz uma promessa
Sentei-me à mesa e escrevi
Sem medo, sem preconceito, sem pressa…

E assim… tal e qual como começou…
… terminou, de repente…
A carta… esta missiva sem selo
O poema mais belo que algum dia tive à minha frente…
E eu? Eu pude escrevê-lo…


(Catarina Ramos)


 







BOA GENTE!

(Frase Célebre da autoria de José Joaquim bravo, o Zé do Rato filho mais novo do RATO da loja
esta frase ainda permanece (escrita há  35 anos) na mesa de trabalho do meu Ti Sapatêro, eu estava lá, vi gravar na madeira com uma esferográfica BIC tão importante desabafo )

Eu, 1966- 9 anos de idade
Local-Herdadinha cultivada de milho, no local onde hoje se situa a casa do meu Tio Réla  

Um TEMPO que parecia não ter FIM..os dias tinham 48 horas e o ano 24 meses.

BOA GENTE!



"A MINHA ALDEIA"

 

A minha aldeia é igual a outras tantas;
Chove e faz frio e faz calor…Cheira a terra,
Sonha-se livremente sem guerra…
Ah, terra minha…Tanto que me encanta.

A minha aldeia guarda na memória,
Os tempos das misérias passadas;
Nas rugas deste povo, imenso nadas
Porque dos nadas não se faz história.

Na minha aldeia, ouve-se os passarinhos a chilrear;
Logo de pela manhã, vê-se o sol nascer,
Rompendo devagarinho ao amanhecer
A minha aldeia!... Que bom é lá estar.

É da serra, que é inspiração do meu canto
Olhos alcançaram largos horizontes,
Percorrendo mundos mil de espanto.

Sal de mágoa e suor rompeu nas fontes;
Povo que trabalha selvagens montes,
Amamos nossa terra, tanto!... Tanto!...
Eugénia Cruz 30/6/2009

Eu-Pai e Barroso
Na Adega do Tólho
1987

                                             

O TEMPO e o Silêncio
                                               

A VERDADEIRA RIQUEZA de uma CULTURA
é o seu PATRIMÓNIO HUMANO.

Maria do Céu Barata Banha
..numa aula fins dos ANOS 80 (1989 ou 1990)
ESTAS crianças são hoje ADULTOS.
As Vivências, Emoções e a Dignidade de um POVO.

Tudo o resto são acessórios que deixam de fazer sentido com o passar dos dias, dos meses e anos. A mente caminha para a pureza-o CORPO deseja descanso, encontra-o no deserto da simplicidade.
Este é o tesouro que guardo na minha essência.


Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...(CL)


No TEMPO dos ESCUDOS


RUA  NOVA


Crónicas da Rua NOVA pretende revisitar e transportar para a ACTUALIDADE, momentos, pessoas e pequenas HISTÓRIAS daquela que foi em tempos a RUA mais dinâmica do ZARCOS.
Homenageio particularmente duas personagens que me ficaram na retina e também no coração. Uma dessas personagens pela sua disponibilidade, correcção e entrega desinteressada  às pessoas que o solicitavam, refiro-me concretamente Sr. Angelino.


Pásco
Num prédio nobre
O CHORO e a ARTE


( Blogue-POESIAS e REFLEXÕES)

Onde a vida era a incógnita ao redor
Um momento de abertura
Nas cores da antiguidade
Que se tornava o presente na memória
Num quadro artístico da infância
Jogado nas tintas negras da história
Vi laços de minha origem
Angústia e lembrança
Se misturaram na concretude lágrima.
O percurso além da vontade
ahhh ...história?
Era apenas a repressora dos sonhos.
Agora,
Cores antigas e novas
Conversaram com minha história
Dialogaram com os sonhos.
A visão do antigo e novo
Era meu real perdido
A expressão de um antigo e novo ser
O encontro dúbio de meu resgate
Contrastes da vida
Que libertaram minha face
Numa identidade revelada
Quando vi em choro
a arte na lágrima das cores.

( Blogue-POESIAS e REFLEXÕES)

Os GRIZÉUS


Grizéu e Grizéua na casa da Vila Gomes em Lisboa 
(Praça do CHILE)
1987

Tenho vindo a ESBOÇAR, há algum tempo, a abordagem que queria fazer a esta Família , a do nrº 55 da RUA NOVA. Iniciar ou arrancar com este tipo de projecto, do BLOGUE, local de REGISTO de uma vasta população do ZARCOS obedece a uma determinada metodologia, preciso de fotos, textos e de muita reflexão. Seria tudo mais fácil se tivesse a colaboração de uma vasta franja de pessoas que terão com toda a certeza muito para dizer e também estarão na posse de REGISTOS fotográficos que me dariam uma boa AJUDA.
Qual a RAZÃO que me levou a entrar num PROJECTO tão significativo?!
-Não Sei!
Porque continuo a "Espenicar" na HISTÓRIA?!
-Também não SEI!
A única coisa de que tenho alguma noção é que o assunto é importante de certa FORMA...tão IMPORTANTE QUÃO todas as pessoas que fazem parte deste REGISTO de Memórias.
Tudo tem um FIM, nada é importante, e, tudo é IMPORTANTE na BREVIDADE da Vida.
Como se "constroem" umas décimas?
Como se alimentavam noites de versos à desgarrada na ADEGA do Tólho ou noutros LOCAIS?!

Era preciso sempre  um MOTE!
É desse PORMENOR que estou a FALAR quando peço a AJUDA de TODOS. Todos são aqui IMPORTANTES (OS que Quiserem).
Chegou o Momento de FALAR, escrevendo na FAMÍLIA do Mestre João ALGRAVIO.
Como Mote-QUESTIONO:
-O que é a VIDA?!

"A vida é o oceano
A tristeza e a felicidade são os ventos
Os pensamentos são as pontas das montanhas, que se
erguem como ilhas
A vida de uma pessoa é o seu veleiro.
Uma pessoa em harmonia
É aquela que sabe usar os ventos
como força para se impulsionar,
usar as ilhas para o seu descanso na sua jornada,
apreciar o balanço das ondas, como elas devem ser,
E ao final da jornada,
abrir um sorriso e dizer: a viagem valeu!
Uma pessoa em desarmonia
É aquela que sempre transforma os ventos numa tempestade,
Que ignora as ilhas, e as vêem como
obstáculos as suas jornadas,
Que acha que as ondas só podem estar no topo,
Que no fim da jornada apenas conta quantas vezes as ondas
desceram e quantas vezes o barco virou. "
Chao Lung Wen



Será muito Fácil abordar este novo Artigo, falar sobre esta GENTE que tive oportunidade de conhecer bem, das VIRTUDES, DEFEITOS e instinto de SOBREVIVÊNCIA. Lembro-me deles desde muito pequenito, tive a sorte de poder conviver de perto com estas 3 personagens. Uma longa VIDA cheia de ACONTECIMENTOS e conhecimento. Esta SENHORA vinha de outro MUNDO, um imaginário e uma CULTURA de VIDA invulgares para a época e para o "PORTO" onde atracou o seu BARCO. A MARIA Luísa Espadanal RAMOS nasceu numa família de AGRICULTORES na Frandina-Estremoz, família  abastada e com grandes conhecimentos, a FAMÍLIA ESPADANAL foi entre os anos 30 aos anos 80 uma referência na região de ESTREMOZ no mundo dos negócios ligados aos trabalhos do CAMPO. Eram 5 irmãos e perderam a Mãe muito novos, Maria Luísa tinha onze anos. Foram separados e cresceram sob a protecção de Tios. Estruturaram o INSTINTO de SOBREVIVÊNCIA numa vida de trabalho, de convívio com muita gente de muito lado e de variadas formações. Esta foi a MULHER que chegou ao ZARCOS no início dos anos 50. Casou com o filho do Algarvio, um pedreiro de S.Braz de Alportel que veio procurar SOBREVIVER num ALENTEJO pobre e cheio de obscurantismo. 
Uma FAMÍLIA de 9 pessoas numa pobreza extrema como muitas existentes na TERRA, foi o MADEIRINHO que calou muitas vezes a voz da FOME nos estômagos da Família ALGARVIO-Gatêro.


Maria Luísa, João Ramos e Diana
1973


Este casamento com todas as suas diferenças perdurou pelos tempos, deu origem à FAMÍLIA Grizéu, não sei nem de perto nem de longe de onde veio tal apelido, nunca perguntei. Os nomes entranham-se  no nosso imaginário sem darmos por tal, habitua-mo-nos a eles sem qualquer tipo de CONOTAÇÃO negativa. E como o ALENTEJANO é imaginativo para essa coisa dos NOMES. 

PORQUE SIM!
Fazer da CAL o B.I. Comer o primeiro U de AUGUSTO. Às Marias chamar Bias. Petiscar ao FIM do Dia. Acreditar em Deus e no Partido Comunista. São coisas de Alentejanos.
Explicar Deus como "alguém que manda nisto tudo". Casar pela Igreja. Baptizar os filhos. Ser indiferente à missa. Não faltar à procissão. Desprezar a CONFISSÃO. Cantar ao menino pelos REIS. Chamar Magana à MORTE. Dizer dos familiares que lhe MORRERAM:"o meu PAI que Deus TEM". Tirar o chapéu diante do cemitério. Crer em VIRTUOSOS (BRUXOS). Temer as TROVOADAS como os Gauleses do Astérix. Benzer o Pão antes de entrar no FORNO. Não derramar AZEITE. São coisas de Alentejanos.
Estar apaixonado quando está triste.
"Andar atrás de"quando está apaixonado.
Chamar BODA ao CASAMENTO e ao copo-de-água função. Anteceder o nome dos filhos do pronome possessivo meu ou minha: o meu João ou a minha Maria.. Da mulher dizer apenas"a MINHA", ignorando-lhe o nome.
Não ter tranbelho para os trabalhos domésticos. Enforcar-se quando se vê VIÚVO. São coisas de Alentejanos.
Ver cair a GEADA, chamar charoco ao FRIO e busaranho ao vento GELADO. dizer que está aspereza quando há TEMPORAL. Ao sol chamar "o ASTRO", como se fosse o único no céu. Ao CALOR chamar CALMA. Viver com o SUÃO. Chamar às PLANURAS DESCAMPADOS.
Cerros aos OUTEIROS. À FLORESTA arvoredo.
Olhar o Horizonte e SABER ter VAGAR. Dizer:-ESTOU à ESPERA de me ir EMBORA. Declarar com solenidade: DEVAGAR que tenho PRESSA. A Lisboa chamar ALDEIA GRANDE. Ter PARENTES na BRANDOA. São Coisas de ALENTEJANOS.
Estar de RODA do LUME. Sentar no Chão para conversar.Parar no largo ao olhinho do SOL. Ter sempre a navalhinha petisqueira no bolso das calças. Condutar o Pão, o VINHO e a Vida. Beber só com COMPANHIA. cantar quando os outros também cantam. À seca chamar desgraça.
SÃO COISAS de ALENTEJANOS.
PORQUE SIM!!!(P.F.)
João António Tempero Raminhos, este o outro nome que completa o casal. Sem me querer tornar exaustivo nos pormenores, na descrição das vivências descritas vezes sem conta noutros artigos deste espaço de comunicação. Quero tocar no entanto mais uma vez no PONTO SENSÍVEL da "INUTILIDADE"
SEM SE PENSAR DEMASIADO a sério na vida.Quando no artigo anterior escrevi a FRASE : ACABOU o TEMPO, a mensagem que queria passar era a da cruel realidade, do nosso tempo estar no FIM. Como as camadas de solo sobreposto que se acamam duramente entre si com a passagem dos séculos, assim é a dura REALIDADE das Famílias e GERAÇÕES.
A NATUREZA é perfeita e EQUILIBRADA, a mensagem que subtilmente nos transmite  é de RENOVAÇÃO-SUBSTITUIÇÃO. Jamais estaremos preparados para aceitar esse facto, resta-nos agradecer por termos vindo, ainda que por um "bafo" de tempo ao MUNDO. 
Mas nunca nos habituaremos por completo à PERDA. À perda de um TEMPO maravilhoso de coesão FAMILIAR, o espaço até nos fazermos homens ou mulheres. Essa FAMÍLIA era vasta, composta por toda a GENTE que habitou o ZARCOS neste PERÍODO-o PERÍODO do nosso TEMPO.
Vivo num Mundo Físico distante dessa realidade, de certa forma ajuda-me a ser aparentemente frio nas descrições que faço. Esta FAMÍLIA já não existe, só nas ténues recordações  que teimosamente me recuso a abandonar.
É uma PELE que nunca conseguimos despir, foi a nossa verdadeira FAMÍLIA, depois partimos e criamos o nosso mundo "PEQUENINO" que mais não é que um CLONE daquela onde nascemos.
   

Hoje que tenho tudo,
só PERDI o PASSADO.

Lembro-me com SAUDADE de 2 objectos que faziam parte do ESPAÇO FÍSICO da família GRIZÉU. Um fogão a petróleo e um RÁDIO "MEDIATOR". Estes dois objectos separados pelo tempo e por uma fronteira que separa o claro do escuro. Acompanharam o meu crescimento e ajudam-me a visionar em claras imagens os tempos felizes quando este "clã" escreveu as primeiras páginas do livro da sua vida.
O TEMPO antes da chegada da electricidade e o depois quando os fios cremes se instalaram harmoniosamente nas paredes de cal branca.
A minha casa também, e das 3 pessoas que descrevo neste artigo, casas com um quintal pequenino mas precioso um POÇO e uma barraca de arrumação onde estava pendurada uma bicicleta podre como símbolo de uma evolução já vivida e esquecida.



A Habitação com o nrº55 mantém ainda hoje a sua imagem original, mantém-se como um símbolo de um TEMPO há muito desaparecido. Nas traseiras continua a pedra enorme de xisto onde a GRIZÉUA lavava a loiça, o poço persiste.
As mármores polidas das portarias trazem-me o eco de uma vida rica de acontecimentos passados, a casa de entrada grande com uma janela ao cantinho, o candeeiro a petróleo também sobre um suporte perto da chaminé. Iluminação débil dos primeiros tempos da primária, no INVERNO a cama chegava cedo não havendo muito espaço para conversas mil vezes repetidas. O lume iluminava o ambiente com sombras vivas nas paredes em SIMETRIA, o candeeiro descansava por necessidade de poupança.
A Joaninha vermelha era já nessa altura um símbolo de progresso e também de estatuto do João Grizéu, o cheiro a GASOLINA pairava no AR misturado com outros cheiros meus familiares. O dos fritos em tacho de azeite, o da salgadeira do quarto do quintal.
Em Outubro a casa de fora enchia-se de FORASTEIROS, era um tempo rico com o chão ao fim do dia coberto de peças de caça. Troféus exibidos orgulhosamente pelos visitantes vindos do lado de ALMADA e CACILHAS. Vivem ainda em MIM os nomes de ORLANDO, MÁRIO e Augusto ANTÓNIO Dias da casa das Sementes.




caçadores
 

Estes são símbolos que expressam a riqueza desta gente de se abrirem a novas gentes e a novos conhecimentos. A cultura de bem receber do ALENTEJANO.




Fui um privilegiado de ter passado a par deles estes momentos de comunhão plena de acontecimentos, contavam-se histórias, serviam-se deliciosos manjares e vinham prendas daqueles lados do MAR.
A casa cheirava desta vez a sangue misturado com o odor adocicado do tabaco caro. Entre risos, gritos e palavras embriagadas contavam-se as façanhas do dia. O FIM de semana terminava num adeus da partida e do até pró ano. Os carros arrancavam decorados por uma cobertura de pelos e penas pendurados. A bandeira de um TEMPO de fartura nos campos do Alentejo, o tempo do respeito pela caça, os campos estavam cultivados, as cearas davam muita fartura às criações. A ALEGRIA do 1rº de Outubro persiste hoje nas recordações dos mais velhos, uma recordação distante e cinzenta. 
O tempo DO FOGÃO A PETRÓLEO é marcante nas minhas recordações, era o tal tempo das noites escuras , onde as ESTAÇÕES do ano estavam bem demarcadas por espaços curtos de ligação, a vida na casa 55 seria muito parecida com a de todas as outras casas da RUA. Nós éramos verdadeiramente FELIZES, toda a gente era FELIZ. Lia-se essa felicidade nos ROSTOS de todas as gerações que conviviam e pisavam as pedras da rua enlameada de Inverno e com nuvens de pó nos dias de vento. Antes dos postes com fios estendidos chegarem e decorarem os telhados das casas os dias passavam-se entre a organização possível da gaiatagem a ir para a ESCOLA, sempre à mesma hora 8.40 o Barroso aparecia à porta a chamar o AMIGO(Ávo). 


MÃO no AR!!!
-QUERO PÃO...


Ao meio dia e meio e com uma formatura ordeira as classes da ESCOLA dirigiam-se  para o almoço na cantina da DONA FLORINDA ao canto do cormeal, as sopas de feijão e Grão, deliciosas e o amargo óleo de fígado de bacalhau.
Esta foi uma MULHER querida pela MIUDAGEM, não só pelo que nos servia mas pelo carinho que nos dispensava. Por esse motivo abro um ESPAÇO para ela no seio da FAMÍLIA GRIZÉU. A DONA FLORINDA, foi contratada pela Dona VITÓRIA e Dona Ângela para abrir um REFEITÓRIO para dar de comer à GAIATAGEM, penso que foi mais uma das inovações dos TEMPOS do ESTADO-Novo. Naquela casa de duas divisões ao canto do CORMIAL onde hoje mora a filha...(e minha amiga de sempre) do "PÉLU" comíamos, riamos e apertava-mos o nariz para fugir ao tal CHEIRO do ÓLEO de Fígado de BACALHAU. Eram Fantásticos esses momentos de COMUNHÃO.
Deixo-os registados em imagem com esta foto EXPRESSIVA e SIMBÓLICA da Dona Florinda e do MARIDO SEBASTIÃO, fornecida pela minha QUERIDA e estimada "PÁLINA" do Amaro do Raspóte, sua FILHA.

Sebastião de Jesus Cabaço
Florinda da Encarnação Carvalho


Quando QUERÍAMOS PÃO, metíamos a MÃO no AR.


Havia uma ligação profunda entre esta família (...dos GRIZÉUS)e a loja do Rato ali mesmo ao lado, muitos dos momentos felizes do gaiato reportam-se a esse convívio familiar, lembro-me dos sábados de enchentes no talho e na mercearia onde era de um enorme prazer pesar o açúcar e o arroz nos sacos de papel manteiga de uma vez só. Como o Hábito aperfeiçoa a habilidade.
Era um TEMPO também de fartura, não se comprava uma melancia mas sim uma arroba ou duas. O PORCO invariavelmente tinha 15 arrobas e era um grande bicho, tudo servia para manter o RITUAL da festa e da comunhão. Esperava-se esse dia para levar a cachola aos mais chegados...amealhava-se 5 tostões por cachola, 8 ou 9 cacholas era a média. Com o espírito já no outro dia o da "DESMANCHAÇÃO". 




Desmanchação do porco

Era o dia de levar os jantares de carne aos mesmos e mais chegados-ESPÍRITO de COMUNHÃO-25 tostões, uma moedinha com a caravela vestida, uma fortuna para os Gaiatos.


Traballho


Esta era a palavra mágica, toda a gente procurava o trabalho e era feliz com ele.
Sempre que penso nestas duas pessoas não os consigo dissociar desta actividade tão NOBRE na vida de qualquer comunidade,( hoje já não é assim...) Mestre João Grizéu foi um dos GRANDES homens do ZARCOS,
trabalhou até ao dia que a vista o fez cair da motorizada, bem perto dos 70 anos, não me lembro de um dia sequer que não fosse trabalhar no ofício de fazer casas. De Inverno ou Verão, com chuva ou sol tórrido sábados e Domingos sempre ouvi aquela mota (JOANINHA). Conhecia-lhe o trabalhar muito longe lá para as bandas do PEXÓCA. Esperava-o impacientemente pois sabia que viria alguma sobra dos restos do almoço. Talvez um pedaço de ovo estrelado ou um bocadinho de fesnada (entrecosto), e assim acontecia. Aquele velhote que hoje espera a partida no LAR dos ARCOS é um admirável sobrevivente de uma família que sofreu as "passas do ALGARVE" para conseguir um futuro melhor, não se teria nessa altura a noção do melhor ou do pior. Simplesmente vivia-se com dignidade a pensar nos filhos.O Mundo era simplesmente um círculo com diâmetro diminuto. Nesse círculo constavam Estremoz, Borba e as aldeias perto destas. Este foi o tempo do candeeiro a petróleo.




O tempo em que a "MARILUÍSA" brigava com as chaminés de vidro cheias de "mascárra" ou a desentupir a cabeça do fogão com a agulha de arame.
estas eram as preocupações mais à mão. E à mão de semear estava a cara do filho, muita porrada levavam os gaiatos das mães, todos os dias era aquele fadário sovas e mais sovas...por tudo e por nada. A vida dos GAIATOS era difícil nestes tempos do candeeiro a petróleo.

Fez-se LUZ 
A GRANDE e VERDADEIRA REVOLUÇÃO...na VIDA de uma POPULAÇÃO.
LUZ!
Avisam-se todos...obrigatório sorrir, Sonhar e não ir para a cama cedo.



 

(CONTINUA)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Acabou o TEMPO na TERRA dos NOMES

O Síndroma da PIRÂMIDE

‎"O bem do homem consiste no amor assim como a planta deriva da luz"

A VERDADEIRA RIQUEZA de uma CULTURA é o seu Património

HUMANO. 

"A cultura, soma de todas as formas de arte, de amor e de pensamento, através dos séculos capacitou o homem a ser menos escravizado".   (André Marlraux)

 

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PARA a FELISMINA XAREPE em 1973 e HOJE no SECXXI

 

Neste Momento TERNO e PENSATIVO



MUNDOS MARGINAIS-MUNDOS PARALELOS

O dom da OBSERVAÇÃO é inato em mim, o Cérebro é o elemento mais fascinante do corpo humano e digno de aprofundado estudo. Retém pequenos nadas e grandes feitos, retém odores, imagens e sons há muito desaparecidos mas que se mantém actuais nos mais longínquos recantos da massa cinzenta.
Neste ARQUIVO de MEMÓRIAS que é o meu, despontam ROSTOS e VOZES de personagens há muito desaparecidas. Entre elas e num lugar de Relevo aparecem pessoas, as TAIS PESSOAS dos MUNDOS MARGINAIS. Por (MAU) Hábito ou por uma QUESTÃO Cultural, habituámo-nos a olhá-las pelo canto do olho. O TOLO, o Bêbedo ou o Pedinte que dormia a qualquer canto de Inverno ou no Verão.
Estes são os que recordo melhor- não por QUALQUER tipo de piedade ou sentimento menos abonatório. Continuo ainda hoje a tratar essas pessoas da mesma forma que trato qualquer outra pessoa com elevado estatuto social. Estou a lembrar-me neste momento do Amigo ROZIL (LI há poucos meses no jornal da grande cidade um TÍTULO:ROZIL ATACA de NOVO), sei a dura vida que escolheu ou não-há poucos meses bebi uma cerveja com ele e deduzi no seu imaginário vencido pelos acontecimentos, que tinha chegado ao fim de um ciclo, estava de certa forma vencido pelo próprio caminho que escolheu-naturalmento isto não me torna incapaz de olhar para este ser da mesma forma que sempre o fiz . Saliento este exemplo para ilustrar o que quero dizer com este texto.
Retenho do passado , como já escrevi em outros tantos artigos o nome do Gemiano, DONANA, GALEGA, Samarrinha, GATORRO, BACALHAU, 2 e NADA e recentemente o BARROSO e no Futuro o TRAMBOLAS. São PERSONAGENS muito ESPECIAIS as tais dos MUNDOS Paralelos.
São preciosas estas personagens, são quase como uma BANDEIRA dos LOCAIS, simplesmente porque são diferentes, são uma MINORIA assumidamente ou não ORIGINAIS e CORAJOSOS nas atitudes. Umas vezes por problemas de SAÚDE, outras pelas características inerentes aos seu GENES.
No HORIZONTE INTOCÁVEL da NORMALIDADE estas pessoas são DIGNAS de estudo-Têm no seu interior MUNDOS PONTUADOS pelo Sofrimento, Contradições, Forças estranhas e PERSEVERANÇA sem fronteiras.Os seus olhos reflectem derrotas, amarguras, VITÓRIAS e REBELDIAS. 
Para dar o EXEMPLO e como SINAL de RESPEITO eu estou presente em todos os REGISTOS e ANÁLISES.
EU! estou aqui de CORPO e ALMA...

NESTE MOMENTO TERNO E PENSATIVO
Neste momento terno e pensativo
Aqui sentado a sós
Sinto que existem noutras terras  outros homens
Ternos e pensativos,
Sinto que posso dar uma espiada
Por cima e avistá-los
Na França, Espanha, Itália e Alemanha
Ou mais longe ainda
No Japão, China ou Rússia,
Falando outros dialetos,
E sinto que se me fosse possível
Conhecer esses homens
Eu poderia bem ligar-me a eles
Como acontece com homens de minha terra,
Ah e sei que poderíamos
Ser irmãos ou amantes
E que com eles eu estaria feliz.
Walt Whitman


Entre estas personagens imortalizadas na minha história de vida está a 
"MARI" da BELA
Não tenho nem pretendo estender-me em ADJECTIVOS ou divagações sem sentido.
Não preciso contar feitos porque os que viveu não são importantes para construir novelas ou romances. Era uma pessoa comum, não precisa nada disso. Era tão simples que não se dava por ela, eu lembro.
Recordo
uma pessoa, uma SILHUETA sempre em Movimento NERVOSO, cadenciado e em SILÊNCIO no FORMIGUEIRO de uma COMUNIDADE a rebentar pelas costuras. Em todas as RUAS e em TODAS as casas HAVIA GENTE, velhos sentados, mulheres a ralhar com os maridos ou com a GAIATAGEM .  DELA, recordo-a vezes sem conta no seu VAI-VEM do BAIXO e do CIMA-BAIXO.
Vislumbro o ROSTO TRISTE, mas com uma força ilimitada para conseguir os seus intentos. Ninguém nunca conseguirá entender o que vai na mente destas personagens, uma força indescritível na procura de objectivos para se gastarem. Gastarem o CORPO e a MENTE.
Recordo-a também numa repetida azafama de limpeza do espaço em frente à sua porta, nas caiadelas dos alegretes.
Recordo-a pelos gestos de chamada ao RENATO e da IRMÃ, pelo ignorar das palavras rigorosas do VALADEIRO seu marido.
Ela Firme continuava em frente.
Como uma FORMIGA num Formigueiro ela destacava-se pelo esforço incansável para sobreviver à repetição monótona dos dias e da VIDA.
Esta é a única História da MARIA da BELA-uma SOBREVIVENTE enquanto existiu, uma mulher SIMPLES e DIGNA do MUNDO PARALELO, aquele que olhamos pelo canto do OLHO.
Que esteja em PAZ.
MARIA da BELA



Maria Antónia Pingarilho Bravo22 Fev 1934 / 13 Junho 1997


MÃE
Mãe, minha mãe adorada
Tu que me deste o ser
Por mim eu te vi sofrer
Sem ti, minha vida é nada!
Mãe, minha mãe bendita
Tu que me deste a vida
E tanta coisa bonita
Jamais te trago esquecida!
Mãe, minha inspiração
Trouxeste-me a este mundo
Num sofrimento profundo
Guardo-te em meu coração!
Viste teu filho brincar
Viste teu filho crescer
Já não o viste chorar
Viu-te ele, a ti morrer!
Já não há aquela manta
Pra do frio me agasalhar
Para mim já ninguém canta
As cantigas de embalar!
Em constante ansiedade
Minha vida é uma loucura
Minha mãe...quanta saudade
Dos teus beijos...que ternura!
Vives noutra vida agora
Mais serena, com mais calma
Foste desta vida embora
Foi teu corpo...fica a alma!
Descanses em paz nos céus
Que eu por ti vou rezar
Dizendo bem alto a Deus
Com Amor...te vou Lembrar!
(Renato Valadeiro)



A MALTA de 65
Encontro em volta de uma MESA. Histórias que representam FRAGMENTOS
de uma CAMINHADA. Pedaços de Histórias que aproximam a verdadeira essência da VIDA-O AMOR
e a FRAGILIDADE que o ser humano representa no contexto de toda a NATUREZA.
São ROSTOS (também) do meu passado, figuras, algumas delas que não via Há muitos (longos) anos; aconteceu por acaso esta abordagem de palavras, partilha de olhares e interrogações sobre um passado distante. Sorrisos...afectos no SENTIR.
Lembras-te?!! lembro-me de vocês "OS GRANDES"...os muito grandes umas 3 gerações antes da...
Este pretendia ser um ARTIGO da partida-despedida. dos que no olhar perderam a noção do tempo presente as circunstâncias porém fizeram-me ser mais abrangente. Mas não estaremos todos nós envolvidos por esse FATALISMO?...o da cruel FRAGILIDADE duma realidade que ninguém escapa, todos NÓS!
Ontem Sábado dediquei o meu DIA a uma procura incessante de ROSTOS meus familiares e a lugares que fizeram parte do melhor da minha vida. Personagens que quero manter VIVAS neste ESPAÇO de partilha. Consegui quase na totalidade atingir os meus objectivos, capturei rostos no FRAME da minha máquina... marcados pelo peso dos ANOS, pelas mágoas e solidão. Distribuí abraços, beijos de Saudade-fiquei impregnado de nostalgia e cheguei à noite mergulhado numa dolorosa tristeza.
Tarefa pesada esta de mexer com o passado e com a mortalidade da existência. O Alentejano e o OUTONO são um e a mesma coisa. A queda da folha é também a quebra dos gestos e das vontades de construir o que há muito está espalhado em seu REDOR. A vida é no LARGO-o velho LARGO é o SÍMBOLO (enganador) de que tudo vai indo mais ou menos. mas os locais que visitei distantes um pouco do centro do ALVO (os tais locais da minha meninice...), revelaram-me outra realidade. As casas em RUÍNAS, vazias, os campos abandonados e os espaços habitacionais pontuados aqui e ali por sombras em movimento lento  confundiram-me e interrogaram-me num silencioso discurso.
-Onde estão os Jovens?!
Onde está a sobrevivência deste local assinalado no MAPA com o nome de ARCOS?
Pois, é a VIDA...(- Não! é a ampulheta do TEMPO, a partida das SOMBRAS e a chegada do silêncio )


Muita gente ficou a faltar nas contas do meu filme, pretendo fazer uma segunda abordagem ao tema, para que nenhum fique esquecido. Este foi o primeiro filme (de imagens reais), FLASHES de rostos a olhar para o infinito. Será montado nos próximos dias e colocado neste espaço que é de todos-observem-nos com um olhar de RESPEITO e ADMIRAÇÃO-estas pessoas e EU TAMBÉM são o coração do CORPO de uma existência à qual não pediram efeitos de MAGIA ou Fórmulas mágicas para criar novos MUNDOS.
Somos simplesmente PESSOAS a que um DIA deram um nome, pessoas da CONTINUIDADE em marcha acelerada para a LIBERDADE e DESCANSO da MENTE.
O FIM do FILME afasta o "RUÍDO" da SALA.
Obrigado a todos aqueles que colaboraram e foram muitos.
03 de OUTUBRO de 2010/10.08 Horas

A NATUREZA renasce sempre das Cinzas, nós não.

(O filme vem a seguir)



Uma ABORDAGEM ao Rápido passar dos dias.


Aproveita a vida enquanto ela é vida dentro de ti aproveita o teu corpo enquanto és tu que lá moras.Aproveita.Primeiro tens mais espírito do que corpo e há dentro de ti uma convulsão de ideias ,uma agitação infinita de projectos,resoluções,descobertas.Depois a convulsão abranda e começas a viver de ideias amealhadas.Depois pouco a pouco,vais perdendo essas ideias ou vais esquecendo-as no sótão de ti.Depois resta só uma ou duas com que te vais governando.APROVEITA!
"Today is a good day to die" or "Live your life so that if you die today you will have no regrets" in the Crow language.


KONTINUIDADES





Pelo sonho é que vamos

Quando te OBSERVO

Sinto-me tanto de TI.

Quando vos olho

Sinto-vos tão iguais a MIM!

Para O MESTRE João,meus filhos JÚLIO e GUILHERME


TERRA DOS SONHOS

Na escuridão. Nas sombras. Entre o pôr do sol e o alvorecer.

É um lugar que poucos estejam cientes, é um lugar aonde poucos vão.
É uma obscuridade do lugar como a meia-noite, ele é um lugar brilhante como o dia.
É um lugar de memórias enterradas, onde as esperanças e os sonhos sejam armazenados afastados.

É um lugar onde as verdades não podem ser escondidas.

É um lugar onde as mentiras não podem ser ditas.
É o lugar onde a vida começa, ele é a Terra dos Sonhos da alma.

Rostos, sensações. Recordações sem desejos, olhares que me acompanharam desde que me conheço -digo pela curta vida , tão BREVE e nada, Tão cheia de tudo. Rostos em espera marcados pela FRIEZA dos tempos, desenhados pelos ventos pelo crepitar das 4 estações sobrepostas ano a ano a anos, e, nós cá em baixo cedendo ao peso do TIC TAC do pêndulo do RELÓGIO do FATALISMO. Tic-Tac eis os rostos que me acompanharam no Crescimento...TIC-TAC os ROSTOS sem vozes ou com VOZES ténues do nada pensar. Pensamentos voaram com a migração das AVES, em Suas Asas repousam os Sonhos e a energia de MOVER MONTANHAS. Eis o MEU Povo MEU POVO de partida para a terra do Além onde a paz pinta o Céu de cores nunca VISTAS. Meu POVO, meus irmãos no sentir e no PARTIR, esperem um POUCO, um pouco mais vamos juntos na brevidade do estar e na viagem do tudo. Saudades do Desejo, SAUDADES do movimento incessante de VÓS no formigueiro das tarefas de PROCURA de ESTAR e IR. Meu POVO SEMELHANTE onde estão todos aqueles que não vislumbro no ângulo do meu olhar. Não vale GRITAR, os sons ficam presos na GARGANTA. Assisto SERENO. Uma serenidade descontente na procura de TODOS, nomes, imagens e desejos tudo se apagou com o cair das PINGAS de uma chuva lenta e silenciosa. A Noite começou a abraçar-nos com a frieza do negro. A ausência da LUZ fragiliza qualquer Gesto do QUERER. Resta-nos o Movimento do APONTAR. O LUGAR está ali sem sentido o lugar SÍMBOLO do NADA, criado pelo cansaço, pela ausência pelo arrefecimento do Líquido VERMELHO que nos corre nas veias. Vão-se os nomes, os desejos , as recordações-tudo se vai, já não se vislumbram os parentescos os ROSTOS tornam-se estranhos. Já não choramos de saudades nem de AMOR...tudo se vai . Estamos separados definitivamente pelo movimento lento da solidão. Não gritem , não Grito por vós , ninguém nos ouvirá esperamos todos pacientemente pelo nada e pela TERRA de ninguém. Tudo se apaga, nada existe. A realidade é uma brisa indelével que refresca de uma forma quente é o doce AMARGO da inexistência da Partida procurando uma CHEGADA macia onde a cabeça descanse duma JORNADA que não existiu.

Meu POVO esperem um pouco mais!!

Para a Minha Mãe e para todos nós KAMINHANTES da JORNADA BREVE.


Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.
(Sebastião da Gama)


foto

“Pelo sonho é que vamos”

O dia 10 de Abril, «Dia da Arrábida e de Sebastião da Gama», como foi proclamado oralmente e também por escrito, será cada vez mais, ao longo do século XXI, exponencial em afirmação da identidade setubalense, nas mais lídimas vertentes: as belezas naturais e o património cultural.
A 10 de Abril de 1924 nasceu em Vila Nogueira de Azeitão o poeta Sebastião da Gama, de seu nome completo Sebastião Artur Cardoso da Gama. Na casa que foi de seus pais, em Azeitão, está afixada a placa que o lembra.
Cedo passou a também residir em plena Serra da Arrábida, no Forte de Santa Maria, transformado por seu pai em pousada, exactamente com esta designação, depois, por imposição estatal, substituída pela de estalagem.
Em Setúbal, Sebastião da Gama por algum tempo também residiu, em quarto alugado na Avenida Luísa Todi, no ano lectivo de 1947-1948, em que leccionou na Escola João Vaz, ali onde agora é o Externato Diocesano, que o tomou por patrono.
Residiu, finalmente, em Estremoz, no «Largo do Espírito Santo, 2-2.º», onde se efectivou como professor, após os seus anos de estágio na Escola Veiga Beirão de Lisboa. De lá saiu, de Estremoz, no automóvel conduzido pelo irmão Sérgio, ao anoitecer de 5 de Fevereiro de 1952, já sem fala, mas perfeitamente consciente e de olhos fitos na lua, para ir morrer a Lisboa na manhã do dia 7, no Hospital de São Luís, hoje Hospital de Jesus.
Tão breve a vida deste apaixonado Herói da Vida! E, no entanto, uma herança tão rica deixada aos vindouros! Apenas vinte e sete anos de vida («vinte e oito», já muitas vezes se ouviu dizer, mas aí quem sabe o que diz acrescenta: «incompletos»), intensamente vividos e por isso transcendendo o que de um ser comum se espera.
Grandeza de inteligência e coração, acompanhados por uma capacidade e vontade de comunicação extraordinárias, contagiantes de valores e afectos. Maior grandeza ainda, a do Sonho, a resplandecer na acção.
A obra mais espantosa que deixou Sebastião da Gama é a memória que dele ficou em seus conviventes. De entre eles, destaque para os muitos e especiais amigos que lhe foram os seus alunos e nomes bem conhecidos das nossas letras e artes, como Matilde Rosa Araújo, Maria de Lourdes Belchior, Lindley Cintra, David Mourão-Ferreira, Joaquim Vermelho, Luís Amaro, Fausto Lopo de Carvalho. Nem a título de exemplo cabe aqui nomear alunos. É só abrir o Diário. Quem teve a grande sorte de conviver de perto, em especial a partir dos anos oitenta do século XX, com a nata dos alunos de Sebastião da Gama das três escolas em que leccionou, ao ouvir lembranças e testemunhos, só podia sentir uma admiração muito grande, mas ainda mais ao aperceber-se do modo como, por seus próprios percursos de homens feitos, a esse seu mestre honraram. E honram!



O tempo que nos resta

De súbito sabemos que é já tarde.
Quando a luz se faz outra, quando os ramos da árvore que somos soltam folhas e o sangue que tínhamos não arde como ardia, sabemos que viemos e que vamos. Que não será aqui a nossa festa.
De súbito chegamos a saber que andávamos sozinhos. De súbito vemos sem sombra alguma que não existe aquilo em que nos apoiávamos. A solidão deixou de ser um nome apenas. Tocamo-la, empurra-nos e agride-nos. Dói. Dói tanto! E parece-nos que há um mundo inteiro a gritar de dor, e que à nossa volta quase todos sofrem e são sós.
Temos de ter, necessariamente, uma alma. Se não, onde se alojaria este frio que não está no corpo?
Rimos e sabemos que não é verdade. Falamos e sabemos que não somos nós quem fala. Já não acreditamos naquilo que todos dizem. Os jornais caem-nos das mãos. Sabemos que aquilo que todos fazem conduz ao vazio que todos têm.
Poderíamos continuar adormecidos, distraídos, entretidos. Como os outros. Mas naquele momento vemos com clareza que tudo terá de ser diferente. Que teremos de fazer qualquer coisa semelhante a levantarmo-nos de um charco. Qualquer coisa como empreender uma viagem até ao castelo distante onde temos uma herança de nobreza a receber.
O tempo que nos resta é de aventura. E temos de andar depressa. Não sabemos se esse tempo que ainda temos é bastante.
E de súbito descobrimos que temos de escolher aquilo que antes havíamos desprezado. Há uma imensa fome de verdade a gritar sem ruído, uma vontade grande de não mais ter medo, o reconhecimento de que é preciso baixar a fronte e pedir ajuda. E perguntar o caminho.
Ficamos a saber que pouco se aproveita de tudo o que fizemos, de tudo o que nos deram, de tudo o que conseguimos. E há um poema, que devíamos ter dito e não dissemos, a morder a recordação dos nossos gestos. As mãos, vazias, tristemente caídas ao longo do corpo. Mãos talvez sujas. Sujas talvez de dores alheias.
E o fundo de nós vomita para diante do nosso olhar aquelas coisas que fizemos e tínhamos tentado esquecer. São, algumas delas, figuras monstruosas, muito negras, que se agitam numa dança animalesca. Não as queremos, mas estão cá dentro. São obra nossa.
Detestamo-nos a nós mesmos é bastante mais fácil do que parece, mas sabemos que também isso é um ponto da viagem e que não nos podemos deter aí.
Agora o tempo que nos resta deve ser povoado de espingardas. Lutar contra nós mesmos era o que devíamos ter aprendido desde o início. Todo o tempo deve ser agora de coragem. De combate. Os nossos direitos, o conforto e a segurança? Deixem-nos rir… Já não caímos nisso! Doravante o tempo é de buscar deveres dos bons. De complicar a vida. De dar até que comece a doer-nos.
E, depois, continuar até que doa mais. Até que doa tudo. Não queremos perder nem mais uma gota de alegria, nem mais um fio de sol na alma, nem mais um instante do tempo que nos resta.




A desilusão

Vamos pela vida intercalando épocas de entusiasmo com épocas de desilusão. De vez em quando andamos inchados como velas e caminhamos velozes pelo mar do mundo; noutras ocasiões – mais frequentes do que as outras – estamos murchos como folhas que o tempo engelhou. Temos períodos dourados, em que caminhamos sobre nuvens e tudo nos parece maravilhoso, e outros – tão cinzentos! – em que talvez nos apetecesse adormecer e ficar assim durante o tempo necessário para que tudo voltasse a ser belo.
Acontece-nos a todos e constitui, sem dúvida, um sinal de imaturidade. Somos ainda crianças em muitos aspectos.
A verdade é que não temos razões para nos deixarmos levar demasiado por entusiasmos, pois já devíamos ter aprendido que não podem ser duradouros.
A vida é que é, e não pode ser mais do que isso.
Desejamos muito uma coisa, pensamos que se a alcançarmos obtemos uma espécie de céu, batemo-nos por ela com todas as forças. Mas quando, finalmente, obtemos o que tanto desejávamos, passamos por duas fases desconcertantes. A primeira é um medo terrível de perder o que conquistámos: porque conhecemos o que aconteceu anteriormente a outras pessoas em situações semelhantes à nossa; porque existe a morte, a doença, o roubo…
A segunda fase chega com o tempo e não costuma demorar muito: sucede que aquilo que obtivemos perde – lentamente ou de um dia para o outro – o encanto. Gastou-se o dourado, esboroou-se o algodão das nuvens. Aquilo já não nos proporciona um paraíso.
E é nesse momento que chega a desilusão, com todo o seu cortejo de possíveis consequências desagradáveis: podem passar-nos pela cabeça coisas como mudarmos de profissão, mudarmos de clube, trocarmos de automóvel ou de casa, divorciarmo-nos… E, então, surge o desejo de partir atrás de outro entusiasmo: queremos voltar a amar…
Nunca mais conseguimos aprender o que é o amor.
Se nos desiludimos, a culpa não está nas coisas nem está nas outras pessoas. Se nos desiludimos, a culpa é nossa: porque nos deixámos iludir; porque nos deixámos levar por uma ilusão. Uma ilusão – há quem ganhe a vida a fazer ilusionismo – consiste em vestir com uma roupagem excessiva e falsa a realidade, de modo a distorcê-la ou a fazê-la parecer mais do que aquilo que é.
Quando nos desiludimos não estamos a ser justos nem com as pessoas nem com as coisas.
Nenhuma pessoa, nenhuma das coisas com que lidamos pode satisfazer plenamente o nosso desejo de bem, de felicidade, de beleza. Em primeiro lugar porque não são perfeitas (só a ilusão pode, temporariamente, fazer-nos ver nelas a perfeição). Depois, porque não são incorruptíveis nem eternas: apodrecem, gastam-se, engelham-se, engordam, quebram-se, ganham rugas… terminam.
Aquilo que procuramos – faz parte da nossa estrutura, não o podemos evitar – é perfeito e não tem fim. E não nos contentamos com menos de que isso. É por essa razão que nos desiludimos e que de novo nos iludimos: andamos à procura…
De resto, se todos ambicionamos um bem perfeito e eterno, ele deve existir. Só pode acontecer que exista. Mas deve ser preciso procurar num lugar mais adequado.



... seremos sempre marionetas, guiadas pelas mãos do nosso próprio destino.
E ainda assim, assistimos embevecidos, ao nosso próprio jogo, sendo peças de xadrez, que vão tombando uma a uma, no enfeitiçado ladrilho de um tabuleiro manhoso...



...esperar-te-ei com toda a PACIÊNCIA que me resta!!

(PG...o tempo que nos resta-desilusão)