LOBOS

Sou, na verdade, o Lobo da Estepe, como me digo tantas vezes – aquele animal extraviado que não encontra abrigo nem na alegria nem alimento num mundo que lhe é estranho e incompreensível

Herman Hesse

domingo, 12 de julho de 2020

MUNDOS CRUZADOS




CROMOS
BARBARIDADES
VIVÊNCIAS...
ENGOLINDO EM SECO...o tempo


Junto à TORRE de MENAGEM do Castelo de Estremoz.-(Páscoa de 1985)-4 gaiatos de S. Tiago com o meu Júlio.

os ciganos da minha terra
...........








ESPLANADA





Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês Saramago e coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.


Manuel António Pina


Nasceu a 18 Novembro 1943
(Sabugal)
Morreu em 19 Outubro 2012
Manuel António Pina foi um jornalista e escritor português, premiado em 2011 com o Prémio Camões.
...


As fotografias e os objectos são matéria embrulhada por SENSAÇÕES de GRANDEZA.


MEMÓRIAS do TEMPO
UM DIA no ALENTEJO

Cada foto (...e tenho centenas), cada objecto (centenas tenho, cada 1 com a sua história para contar) falam sobre momentos de  um tempo. Recordo muito bem o dia que trouxe o Júlio ao Alentejo sem a mãe Maria do Carmo. 
Estão gravadas na mente as imagens da partida do Campo Pequeno, os conselhos recebidos e um tal M. Luís Goucha que viria a ser celebridade do SÉC.XXI,vendendo banha da cobra. 
Passou ao lado do autocarro da Turilis pendurado de uma bigode negro  farfalhudo e vestindo uma gabardina tipo inglês que quase lhe tocava nos sapatos. Muito conhecido na época por programas de culinária que debitava no canal (1?) da TV NACIONAL.

  Mas é esta foto do grupo dos gaiatos, que  estrutura a minha reflexão neste dia 12 de Julho. Quando se levava alguém importante às terras do Alentejo, o Castelo de Estremoz era sitio de visita obrigatória. O Júlio  somará este mês 37 Julhos, e os gaiatos de Santiago estarão perto dos 50. Penso que dois deles são ciganos, existe na zona antiga ou existia  nestes tempos uma comunidade de ciganos urbanos. Estes  estavam sempre alerta perto da entrada da Pousada, pela chegada dos TURISTAS,  chamados de "ESTRANGêROS". E como nós de certa forma também éramos visitantes, cravaram-nos (felizmente) esta foto. Júlio o segundo a contar da esquerda sentindo-se um PRÍNCIPE. 

Existia um MUNDO, uma HARMONIA, um DESEJO de "SUPLANTAÇÃO"-tudo isto existia nestes tempos de oitenta do século vinte. 
Hoje pelo contrário são demasiadas as experiências, contactos, comunicação, encontros e reencontros que são só isso. 
Não existem palavras ou afectos que perdurem por umas semanas. Tudo acontece como água na concha da mão, diluindo-se pelos espaços entre dedos. Nada perdura, só a consciência da rapidez dos tempos na passagem desenfreada dos dias, das semanas e dos meses. 

Ontem estava como tele-espectador a assistir a um programa sobre a HISTÓRIA dos XUTOS...(veiu-me á memória)o tal concerto (primeiro) nas Belas Artes-aqueles gajos magricelas que só faziam barulho com os instrumentos. E as fotografias do Álvaro Rosendo que ia fixando o nascimento dos fenómenos das décadas de oitenta e noventa com a sua inseparável máquina fotográfica.

 Fotografia de Álvaro Rosendo-xutos antes de um concerto, Março de 1986


Prefiro duas horas a olhar para o céu estrelado, mas,,,ontem a caminhar para a tarimba, olhei de soslaio para o grande écran e !!!! (entusiasmado fiquei + uma hora) assisti à TERTÚLIA com os XUTOS e os seus admiradores. Vasco Palmeirim nas suas 7 QUINTAS divertia-se à grande. Mostrando MESTRIA no comando dos "HOMENS do LEME". 

Atento ao que se passava naquela sala e sentindo que de certa forma fiz parte daquele espaço, onde emergia  uma nova tribo da cultura, na Lisboa do chiado, do Rossio, das idas ao cinema e aos restaurantes no passeio dos Restauradores. Para os mais evoluídos, existia o Frágil, o Trumps, o Zé da Guiné  o Kremlin. Era o mundo por onde a seu de lado caminhava sem ter acesso nem interesse por ele. Pertencia à grande MULTIDÃO dos cinemas . No Animatógrafo das FITAS PORNO (uma novidade sensacional), Capitólio,Cinebolso, Olímpia, muito frequentados e com sessões contínuas, tornaram-se moda para solteirões , jovens e casais . 
Outros mais sérios... Apolo 70  -Londres- Condes onde fui ver o "URSO" com o Júlio- Monumental-Éden-Quarteto ou Nimas. Muitas viagens e estadias na Gulbenkian e no Centro de Arte Moderna. Lisboa tinha vida para todos os bolsos e todas as mentes.
E o INTERRAIL, viagens para o praíso onde se bebia conhecimento.

Perdurava uma sólida vivência  entre  estas TRIBOS. Nós procurávamos a notícia, hoje somos cilindrados por milhares delas que nos destroem a esperança.

5 meses! produtos 
e gentes de estatuto
carregados de bolor

679 Eur-Bolsa de couro com bolor de 3 meses

679 EUROS repetir para não esquecermos


Existem hoje dois MUNDOS « o dos caos e da ameaça da nossa CONTINUIDADE enquanto espécie dominante». 
E um outro paralelo, Os macabros negócios do Futebol, dos comentadores milionários reformados da política , da destruição planeada da fauna e flora nacional, poluição dos rios, da ECONOMIA DEPENDENTE dos  empréstimos e do turismo de massas . Das CARREIRAS POLÍTICAS e das falcatruas de um PRESENTE sem futuro. Este  mais vivo do que nunca.












Alguns dos XUTOS na António Arroio como estudantes-finais dos anos setenta. 





Recuei 40 anos quando trabalhava no bar e refeitório da ESBAL, os rapazitos que sobre um estrado no pátio da cisterna fizeram um dos seus primeiros concertos. Estavam guardados com a sua persistência e talento para grandes feitos (80 ? ou 1981). 
Já a absorverem a sensação que tudo passou rápido e não terão muitas mais histórias para contar-faltará  pouco a eles e aos "STONES" para darem lugar a outros. 
Uma carreira magnifíca, muitos grupos  (dezenas) ficaram pelo caminho. Como se chamam ...(?) XUTOS e PONTAPÉS!. AAAAHamm(??) diz lá outra vez.  Era desta forma que se assimilava o nome estrambólico , foram os únicos que não se afogaram.

TÁXIS-DELFINS-RÁDIO MACAU_TRABALHADORES DO COMÉRCIO-TROVANTE-GRUPO DE BAILE-MADREDEUS-RÁDIO MACAU E MUITOS MAIS TODOS FICARAM PELO CAMINHO E AQUELE NOME BIZARRO XUTOS,,,ESTÃO AÍ PARA AS CURVAS.

É esta macabra intermitência que faz a história dos HOMENS. Outrora Gaiatos ciganos que em todos os largos das grandes cidades procuravam a gorjeta dos poucos ESTRANGEIROS que afluíam às capitais de distrito ou cidades com alguma história para vender aos curiosos  com poder de compra.
HOJE entre MORTES que não passam de números e percentagens, existe um mundo de rostos na penumbra, gerações de jovens e menos jovens que se cruzam numa espera difícil e inglória sobre a desesperança do futuro.
O mundo da cultura e da representação com as suas personagens, caminham para o abismo-safam-se os nomes sonantes.



XAVIER terá hoje quarenta e poucos anos, é Arquitecto e enviou-me ontem uma mensagem:

  «Mestre Álvaro deslocar-me-ei para a semana como representante da minha firma  à zona de castelo branco para colocar uns painéis frigoríficos. Necessito de dois auxiliares para trabalho de 8 horas por dia e em dois dias. Consegue dar-me nota  de alguém interessado?» .

- Não Xavier, não conheço ninguém de raça branca, Português  que esteja interessado em trabalhar dois dias, e o calor também não ajuda a motivação desta raça de Lusitanos.


É esta sensação de CROMO em leitura contínua,  que sinto no sofá , "serão" entre família no fecho de mais um dia fragmentado por afazeres meticulosamente organizados.
SOBREVIVENDO
Corte de ERVA, tratamento da horta...ontem novamente a ser brindada por uma chuva de granizo.





Curar as orelhas do "orelhudo" senão é comido pelas moscas. Alimentar dois gatos selvagens (mãe e filho), a raposa, e aos meus PRÍNCIPES mais Dona GALA.
Mais um dia GANHO GUILHERME!
Abençoadamente repetem-se os gestos,  aprendendo a lição...somos exactamente iguais nas angústias, nos medos e REPETIÇÕES. Iguais também aos nossos AVÓS - Bisavós- TRISAVÓS e tetravós. Só que com mais PENEIRAS que o tempo e a partida , os tiros de PÓLVORA SECA no ESCURO, nos vão fazendo encostar às BOXES.




OS  ANIMAIS NOSSOS IRMÃOS , POR ELES MANTENHO-ME SEMPRE ATENTO E SUPORTANDO AS VERGASTADAS DO DESTINO.




I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through
All he asks from me is the food to give him strength
All he ever needs is love and that he knows he'll get
So, I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through
All the pay I need comes a-shinin' through his eyes
I don't need no cold water to make me realize that
I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through
Na, na, na, na, na, na, nana
Na, na, na, na, na, na, nana
I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through
Na, na, na, na, na, na, nana
Na, na, na, na, na, na, nana
I love my dog, baby, I love my dog
Na, na, na, na, na, na, na, na, na, na
I said, I love my dog, baby, I love my dog
Baby, I love my dog



                    

 Amo meu cachorro tanto quanto amo você
Mas você pode desaparecer, meu cachorro sempre ficará
Tudo o que ele pede de mim é a comida para lhe dar força
Tudo o que ele precisa é de amor e que ele sabe que vai conseguir
Então, eu amo meu cachorro tanto quanto eu amo você...



Cat Stevens, encontrou  atado a uma árvore (abandonado) o seu futuro amigo peludo e amou-o para sempre. 




Caçadores furtivos abateram a última girafa branca fêmea e a sua cria

Estas mortes deixam apenas uma única girafa branca viva, um macho, também filho da girafa abatida.
https://nit.pt/fora-de-casa/viagens/ultima-girafa-branca-femea-foi-abatida-por-cacadores-furtivos


Três mil milhões de animais mortos ou deslocados pelos fogos na Austrália

 

 

Quase três mil milhões de animais foram mortos ou deslocados pelos incêndios florestais que assolaram a Austrália em 2019 e 2020, segundo um estudo hoje divulgado, que fala numa das "piores catástrofes" para a fauna na história moderna.



Esta chama ardente da DEMOCRACIA.



Pinto da Costa celebra título do Porto e diz que para ter adeptos no estádio até “organizamos uma Tourada, mandamos vir os touros lá de baixo”

LIXO MEDIÁTICo

Chegou JESUS, o SALVADOR. 

 

 

 

Os atentados, a destruição de valores continuam  em todo o nosso respirar, segundo a segundo. Tempo a tempo mergulhados na escória social caminhamos para a demência e o consequente vazio. Estas barbaridades são a antítese da realidade. Esta gente e quem os publicita, quem lhes paga quantias astronómicas, (...a par do vírus que mudou a vida dos outros milhões),tornaram-se uma praga preocupante neste Portugal ameaçado pela miséria que há-de vir.

Existe uma desorientação generalizada nos meios de comunicação. Perdeu-se a sensatez e quase como o último  folgo, vale tudo para entreter as famílias e relançar o consumismo feroz e destrutivo.

Os cães que arderam

Os gatos que arderam

...os cães e os gatos que continuam abandonados aos milhares nas ruas de um país pequenino, governado por grandes senhores com sorrisos e egos desmesurados. Que legislam e não põe em prática as leis que mandam cá para fora. Animais carbonizados no norte, outros milhares permanecem esperando mal alimentados e presos em muitos canis de Portugal. 

Quem abandona um animal de companhia merece um pesadelo para toda a sua vida.

Quem legisla, neste caso sobre o célebre "chip" nos animais e não pune o abandono merece simplesmente ser enjaulado numa cela de um qualquer canil. Experimentando o isolamento e abandona destes seres inteligentes.

 

 

 A PANDEMIA AUMENTOU nos HUMANOS,  todas as características demoníacas.

Esta chama ardente de DEMOCRACIA, apagada.


São os animais que me preocupam , os animais e os jovens, as novas gerações de futuro incerto.
também as famílias e a multidão dos precários que pelo túnel do tempo não vislumbram qualquer sentido, nem saída.
são todos os animais abandonados e os que ainda resistem nos campos. são eles que preocupam a minha existência.os dias repetidos mas abençoados. dias mergulhados de utilidade.E suficiente segurança material. 
os ciganos da minha terra, esses são iguais a nós...obrigados a sobreviverem. 



Pandemia já infectou mais de 13 milhões de pessoas no mundo

sábado, 4 de julho de 2020

DESTRUIÇÃO






Ituna-Itatá: uma terra indígena
da Amazônia tomada por
ganância e destruição

Na agenda antiambiental do governo federal, terras indígenas
viram recompensa a criminosos que invadem a floresta




  Sobrevoo realizado na Terra Indígena Ituna-Itatá em setembro de 2019, na época de queimadas. © Fábio Nascimento / Greenpeace  
Enquanto uma parcela da sociedade fica em casa para se proteger da pandemia da Covid-19, muitas outras esforçam-se para resistir à própria sorte. Entre os grupos mais vulneráveis estão as populações indígenas, em especial as que vivem em isolamento, sob histórico ataque, e que agora estão ainda mais ameaçadas perante o aumento da presença de invasores em seus territórios.  
Diante do relaxamento da fiscalização do Estado sobre áreas tomadas ilegalmente por grileiros, fazendeiros, garimpeiros e madeireiros, os invasores seguem destruindo a Amazônia e condenando ao extermínio aqueles que cuidam da biodiversidade e, por consequência, da vida no planeta.
Ituna-Itatá é a ponta do iceberg de um cenário que se alastra por muitas Terras Indígenas (TIs) da Amazônia. Foi a TI mais desmatada em 2019, segundo dados do Prodes, como mostra o gráfico abaixo. Nos quatro primeiros meses de 2020, já foram destruídos mais 1.319 hectares de floresta nos territórios indígenas, um aumento de quase 60% se comparado ao mesmo período do ano passado. E Ituna-Itatá lidera essa lista com 397,4 hectares desmatados, segundo alertas de desmatamento do sistema Deter, do Inpe.



Evolução do desmatamento na TI Ituna-Itatá por ano, nos últimos 10 anos, em km2

A agenda hostil do governo atual favorece o desmatamento e arrisca levar ao genocídio os povos indígenas da Amazônia brasileira em pleno século 21. Como parte da política anti-ambiental que vem sendo radicalizada nos últimos 16 meses, diversas ações vêm sendo adotadas, com destaque a duas medidas recentes: a Instrução Normativa


 
   n° 9 da FUNAI, que na prática legaliza as invasões dentro das terras indígenas não homologadas, como é o caso da Ituna-Itatá, e a Medida Provisória (MP) 910/2019, mais conhecida como MP da Grilagem, que pretende liberar milhares de hectares aos invasores.


Para se ter uma ideia do tamanho do estrago, 94% do território de Ituna está registrado em nome de proprietários particulares através do Cadastro Ambiental Rural, o CAR, um instrumento que não legaliza a posse da terra, mas que permite que pessoas se autodeclararem donas de gigantescas áreas públicas. 
Outro ponto que chama a atenção é o fato de que quase um terço dos 223 CARs registrados em Ituna-Itatá corresponde a áreas com mais de 1.000 hectares, o equivalente a 1.400 campos de futebol por área declarada! “Isso mostra que os verdadeiros beneficiários dessas invasões são grandes proprietários e grileiros de terra, focados na especulação imobiliária e não famílias vulneráveis em situação de desespero. Mostra também quão confiantes os invasores estão de que o governo muito em breve conseguirá mudar a lei a favor deles. Nunca tivemos um governo tão amigo de criminosos e contra os povos e a floresta como este”, diz Adriana Charoux, da Campanha da Amazônia do Greenpeace Brasil. 
Desde o ano passado, temos acompanhado e denunciadoos crimes em série em sobrevoamos
ItunItatEmsetembrode2019,
o território e testemunhamos a existência de uma gigantesca malha viária cortando a floresta, áreas desmatadas e queimadas, bem como currais, cercas e gado. Uma vez que desde 2011 Ituna tem o status de Terra Interditada, que exige legalmente que ela só seja acessada com a autorização da Funai (Fundação Nacional do Índio), este é um claro sinal de que os invasores resistem ao cumprimento da lei.
Se os grileiros forem vitoriosos e conseguirem evitar a demarcação do território, será aberto um perigoso precedente capaz de promover o extermínio de mais de 100 grupos que vivem em isolamento em outras terras indígenas e sob a mesma condição no Brasil.



Desmatamento chega à mesa do consumidor

Mesmo sendo completamente ilegal qualquer atividade de exploração de recursos naturais em terra indígena, como pecuária, extração de madeira e minério, Ituna-Itatá tem sido palco para fraudar transações comerciais de gado e madeira para o mercado doméstico e internacional.  Algumas das propriedades registradas no CAR, inclusive, estão em nome de pessoas que comercializam gado com pecuaristas que mantém relação comercial com os maiores frigoríficos do país comprometidos com o Desmatamento Zero, como a Marfrig, Global Foods e Frigol e a JBS. 
Dentre tantos proprietários que se autodeclaram donos de áreas na TI Ituna-Itatá, está o advogado Lazir Soares de Castro, que possui dois registros de CAR em Ituna, as Fazendas Mata Verde I e Mata Verde II, cada uma com mais de 1.000 hectares e ambas registradas em 2015, quatro anos depois da interdição da área. 



Investigações de campo do Greenpeace em parceria com a Repórter Brasil mostram que, em 2019, a Fazenda Mata Verde I vendeu 379 animais para a Fazenda Bela Vista, que pertence a Marcelo de Castro. No entanto, a Fazenda Mata Verde I não tem área de pastagem suficiente para suportar a quantidade de gado que é declarada como vinda de lá. Imagens de satélite indicam que o desmatamento dela se restringe a 33 hectares da propriedade, uma área considerada irrisória para a atividade, sem indicação da existência de curral ou qualquer outro tipo de instalação que suporte uma fazenda capaz de fornecer tantos animais. Isso indica que os bois comercializados por Lazir não nasceram ou engordaram na fazenda indicada no documento de transferência de animais.
Vale destacar ainda que Marcelo é sócio de Lazir numa empresa de rações, de acordo com consulta ao cadastro da Receita Federal, e que as fazendas de Marcelo comercializam animais com a Marfrig Global Foods, Frigol e JBS, empresas comprometidas publicamente em excluir de suas listas de fornecedores fazendas com desmatamento, em terras indígenas e com trabalho análogo ao escravo. No caso de Marfrig e JBS, inclusive comprometidas, desde 2011, a controlar todos os seus fornecedores, incluindo os indiretos
Essa é uma prática conhecida por triangulação ou lavagem de gado. É quando o gado “livre de desmatamento” pode estar misturado com outros animais vindos de áreas devastadas. E o boi que nasceu em uma fazenda e transitou por diversas propriedades até o dia de seu abate acaba deixando um rastro de destruição, contaminando todo a cadeia de abastecimento e chegando até a mesa do consumidor do Brasil e de outros países também.  

Madeira: licenciando a Ilegalidade 

Outra irregularidade praticada na Ituna-Itatá é o licenciamento para o plano de manejo florestal concedido pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SEMAS-PA) para a extração de madeira. Em 2016, Wilson Paula da Mota, que se autodeclarou no CAR como proprietário da Fazenda Morro Alto, conseguiu o licenciamento, sem que a SEMA constatasse a sobreposição com área interditada, mesmo que a licença tenha sido expedida cinco anos após a interdição da TI. Outro indício de irregularidade no processo de licenciamento é a quantidade de Ipê declarada no inventário, mais de 5 vezes superior ao que a ciência afirma ser sua distribuição natural. 



Durante o período em que a exploração madeireira supostamente ocorreu, uma análise de imagens de satélite mostra que a propriedade não teve as alterações esperadas quando se realiza o manejo florestal (abertura de estradas e pátios para o depósito da madeira). Ou seja, com os documentos que autorizam extração, transporte e comercialização da madeira em Ituna-Itatá, milhares de metros cúbicos de madeira foram extraídas de forma ilegal de outras áreas, sem autorização, foram legalizadas e vendidas ao mercado nacional e internacional. 
Ao analisar apenas o Ipê, a madeira de lei com o maior valor de mercado da Amazônia,  mais de 10 empresas utilizaram esses documentos fraudulentos para exportar Ipê para diversos países, dentre eles, França, Estados Unidos, Bélgica, Espanha, Holanda e China. 

Ituna-Itatá é um retrato da ameaça à Amazônia

As forças em jogo em Ituna-Itatá são um microcosmo da enorme pressão sobre a vida de povos indígenas e comunidades florestais da Amazônia brasileira. Não bastasse a Covid-19 e a falta de ações para conter o avanço da epidemia nessas populações, medidas do governo somadas à conivência de empresas que se abastecem das matérias-primas originadas de áreas em disputa na Amazônia têm levado ainda mais desespero ao Brasil indígena. 
Vivemos um tempo estranho, afinal, aqueles que deveriam promover e proteger os indígenas atuam exatamente na contramão dos interesses indígenas. Órgãos como o Ministério da Justiça e a FUNAI, que tem o dever de cumprir a Constituição Federal, estão colaborando decisivamente para incentivar a ameaça à floresta e a um genocídio das populações originárias.
Toda vida importa, e não podemos nos omitir e abandonar as populações indígenas à própria sorte. Proteger nossas florestas é fundamental para proteger os direitos indígenas e a nossa sobrevivência. 
Atualizado pela última vez na segunda-feira, 11 de maio, às 09h15.
Antes que se vá, pedimos o seu apoio. Neste momento de quarentena, mantemos nossos escritórios fechados, mas nossa equipe segue de casa trabalhando em nossas campanhas, pesquisas e no monitoramento dos crimes ambientais. Sua doação é muito importante para que esse trabalho continue sendo feito com independência e qualidade, pois não recebemos recursos de governos e empresas

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