LOBOS

Sou, na verdade, o Lobo da Estepe, como me digo tantas vezes – aquele animal extraviado que não encontra abrigo nem na alegria nem alimento num mundo que lhe é estranho e incompreensível

Herman Hesse

domingo, 16 de abril de 2023

GAIATOS donos do FUTURO

 

 

CARTA (2)para a Natividade
 
16abr23//NA MINHA RUA OUTRORA
…OUTRORA NA MINHA RUA NASCIAM PESSOAS, PELAS SEIS DA MANHÃ NASCIAM gaiatos, EM TODAS AS PORTAS, ABERTAS, ESTAVAM PESSOAS. DOS POSTIGOS DESSAS MESMAS PORTAS, E TAMBÉM NAS MEIAS - PORTAS ESPREITAVAM TODAS AS PESSOAS , GUARDIÃS DE NÓS OS GAIATOS HABITANTES DO FUTURO. EXISTIU UM DIA MUITO, MUITO, MUITO MUITO DISTANTE, PARA LÁ DAQUELE QUE OS VELHOS DIZIAM QUE O MUNDO IRIA ACABAR.
 
.« QUANDO TERMINAR O SÉCULO NO ANO 2000, NÃO EXISTIRÃO HOMENS , SÓ MULHERES, E OS DESEJOS DELAS LEVA-LAS-ÃO A AGARRAREM-SE ÀS ÁRVORES, SIM ELAS VEEM nas ÁRVORES os homens que desejam. NESSA PASSAGEM DO SÉCULO, O MUNDO VAI ACABAR DESTA VEZ COM FOGO. AO GRANDE DILÚVIO SEGUE-SE O FOGO, ainda faltam muitos anos».
 
 
Ontem, décadas, muitas décadas depois regressei à minha rua procurando a criança que deixei sentada num portado gasto de mármore. Procurava todas as pessoas que fizeram a minha história, os gaiatos que comigo cresceram. Entrei pelo lado do Sabino e da taberna do Joquim zé, de imediato senti que a Rua Nova estava mais estreita, muito mais estreita da largura de um só carro. Por momentos hesitei, (...será que não estou enganado?), mas está aqui a cancela e o casão do Sabino, a montra da cabeleireira e o lugar da Padaria, a carpintaria do João Gonçalves, os Maguinhas os do filho no Seminário-à esquerda o Café do Sodó, a casinha da senhora Vitória. A casa da Larila «Ai Pereira, ai Pereira, não havia necessidade! - a Larila não vai aguentar». Ainda a Deltrudes e a filha Amélia. Antes do casão do Pereira havia uma passagem para a outra "margem" e uma Mimosa decorava a vereda que descíamos para a fonte das bicas... depois disso o casão do Pereira instalou-se tornando-se o grande palco das matinés.(Por cima a Lídia)...a Larila nãoaguenta de certeza que lhe dá um xxlique.
Yéeeee!! yéeeee!! yéeee!
twisty twisty tombola!
A Casa da Ti Lárinda, o Inácio foi para Timor e o Angélico para o Barreiro. ABia namora o filho do Caldoneta.E a da Nortôa que uma noite de lua cheia quis tomar banho num poço nas traseiras da minha casa (acudam-me! acudam-me, acudam-me. teve sorte a água dava-lhe pro joelho e era Verão) A porta do Tisapatêro, as lenhas do Alexandre da Lebre e do Pélito (?), a cabana da Esperança do Lebre. P+etxarim, Pédxarim e a Narcisaea filha na ALCOFINHA, já nasceu tarde.No forno não há ninguém, a Vezinha Alcine (...ai ai a minha Binácia e a minha Biaurora são tão bunitas) montada no seu sorriso, não está à janela, nem o Angelino,,, nem o Angelino! encostado à umbrêra da porta da casa de mobílias, mas não foi a adega do KINKAS? (...noutro tempo foi!), não ! mas e a loja do Aníbal e o Talho, onde estão(?)- da taberna do António umas fitas caídas anunciam pesadelo, nem cheirus nem «VIVALMA», uma aranha convencida e porta selada por umas teias irritantes.
-Aqui já não entra ninguém!! Acabaram-se, os polimentos de chão, o frango frito, o vinho a correr das talhas , aquele som da pinga caindo da rolha.
o KiKITAS, o Manél do Crujo e o bocado de tócinho imaculadamente branco do Manéli do Crujo também se acabou. Os vinténs do Chito estãm arrumados numa gaveta que apodreceu no canto do quintal ao lado do poço. Aqui jánaentraniguém!
Ainda tive esperança (ao esfregar os olhos), acordado? e a Dona Vitória?mas não foi o Capitãoa Capitôa e a BiaCapitôa? ti Celeste E O Silvério Gato, a Bótaluma, sim a Mercearia !! Qual?? DABÓTALUMA, a das prateleiras pintadas de azul, e a máquina de chupar petróleo com uma manivela. Da Barbearia já não sai gente apressada, a cheirar a pó d´arroz, o som da tesoura ficou mudo-mas, mas não existia aqui uma Barbearia? uma porta com vidros? TALVEZ noutro tempo. E o João do Zézica, a Cruja ?(...) a Vezinha mãe do Tólho, do Zé e da Laroca, costumava estar à porta.
Os Grizéus, postigo aberto , meia porta com um losango de ripas, uma grande pedra gasta de muitas lavagens, ladeada por ardósias vinda do fim do mundo, só pode! Esta é terra de mármore. Dizem quéla veio da Frandina, e roubou o namorado à mulhéri QUÉ HOJI do loiro. Já se namuravam há oituanos, que vergonha. Tem um filho.Natem paciência nenhuma. É orelhada, porrada pracima do inocentiii.
Mas felizes é que na vanseri! (1964).
-O filho da Grizéua? muito inteligente, mas tem pancada e aquela COSTELA de namoradeiro, uma desgraça, sai ao pai, saiu ao pai. (1975)
-Pois tambeim acho, uma porrada eróqueleprecisava.
-Sim uma vergonha.
Naquele lugar, naquela porta e na passagem estreita que dava ao FORNO (agora uma porta de chapa velha) «A LOJA DO RATO» onde Dona Rosa e o Rato coziam o pão. Na Mercearia eu pesava à primeira 1Kg de Açúcar e de arroz- Repito «àprimêra!!», e a azáfama dos sábados, o som do machado no osso do borrego?
Tudo silencioso, não vejo a Isabel da Titurica, nem a Velha Patinha e a Mari dos Frades? e o pessoal dos lados do cemitério , Rua de Borba?
Onde páram a Idalina e o Zé do Rato? O Luís está pra Lisboa e o Zé acentô Praça…têm desculpa mas e o pessoal do Curmial? a velha Barrosa, ladina mexida , com um saco de pano enrolado na mão, onde destão? Onde estão o Zé de Lebre e a Santinha que não queriam nada com a loja do Rato, escolhiam a do Bótalumi, ou era a do Aníbal? NÃO o ZÉ DE LEBRE foi sempre à duFUDRICO. Mas a Catróia a mulher do Zina? Essa comia da Horta do quintal, lá devezenquando às escondidas do Zina ia à loja do Pexóca praninguém a veri, que ficava nos confins da terra, perto da Carpintaria do Mestre Filipe -Constantino onde trabalha o NÉICAN.
Não estava aqui uma cancela e ali uma adega? E a Nucha , a linda Nucha da MaridusFrades ca Vina a guardá-lhascostas? Os irmãos estam todos praLisboa. Só o Mingazé ajuda o pai Joãdoxtradinha.
Sim a cancela o nosso armazém de pedras das Fisgas. Mesmo ao lado da loja pequenina do Angelino, 
 um homem já não pode ter querer!!? Ora essa!!
- Uma vergonha!
-Uma vergonha tens razão.
 
Ó Cabrito!! essa cabana precisa duns remendos, qualquer dia vai abaixo (NÁ!)…a minha irmã na se mexe, cada vez está mais gorda.
Os portados dos alegretes os daVelha Patinha são os mais bem caiados , a filha preciosa (filhas!?) a Esmeraldina do Quimino não é filha da Patinha? só conheço o Patinha aquele que está para Odivelas. Odivelas, mas não é pró Barreru, ou é no Pinhal Novo? Consta-me que é Odivelas.
O Alfrêdo, cada vez mais mirrado, não pode ca mulheri, um brinco. 
 Porra dizemprai umas coizas, não se pode dezeri, mas que há há. Uma vergonha!
 
 
Ai o cão do Gana! «O C de casa é o último a saberii». Calem-se ! cainda pódeóvir alguém.
Ó Esperança, ó Esperança, és tam bunita (Esperança da Pila sorri!) é uma santa rapariga, dizem que é parva, eu gosto muito dela. Se é parva «...nassnota». Mas o sorriso dela e a bondade dela não têm paralelo. A Laura bem atarefada e preocupada (sempre acelerada) com a sua Madalena e as receitas dos doces que faz prós lados da Rosada.
O Zé Varelas, boa casa, porra e aquela frontaria MODERNAÇA. Casa cheia de gente, há famílias abençoadas, até já me perdi, dexacáveri, Zé, Vitalina, Chica, Joana que casoucu Amílcar da lebre, Tólho, Esmeralda ... ainda faltam a Maria Teodória, a otra que casou cu Tendêro. Uma mulher tam pequenina deu nisto, ólha tenhu uma inveja sem fim. O Barroso, porta escancarada foi embora pó tanqui e deixa tudo escancarado-tá aí a velha e a filha no quintal. No centro do Curmiáli onde o Amarão tem os coelhos, mas não são do ZéPiléca? Ólhó senhor Daniel! Sempre respeitoso, boa pessoa…
Do Quiquitas a parreira, belas uvas. Ai a Marinita tam pequenina.
Nunca gostei do Óleo de fígado de Bacalhau, mas aquelas sopas de féjão na cantina da Ti Pálina, oiço os gaiatos no início da Rua Nova, formados em duas filas hora de almoço. A Maria do Céu e a Dona Gizélia viam-se em pulgas para manter a «banda» formada. Até os cães fugiam do barulhos das canções entoadas pla gaitagem a caminho da cantina da TiFlorinda. Do Zina nem sombra, é um Bicho nasedácomninguém, o Catróia não sai a ele… sai à mãe!
O Santinho tá acabado, mas as filhas, as filhas pouco se veem na freguesia.
O Magano e a Tónha da Esperança... moram naquele fundo antes da fonte dos Sapos.
 
 
«Gaiatos…gaiatos filhos da PUTA!»(Ti Paula)
Os guardiões do FUTURO!
Gaiatos.
«NA MINHA RUA NASCEM FLORES» 
 
 
SÓ A CAMIONETA DAS MELANCIAS OU A DO DEPÓSITO DO PETRÓLEO.
SÓ ESSAS NOS BARRAVAM AS VISTAS.
AS PEDRAS , O PÓ (no Verão). AS POÇAS DE ÁGUA NOS DIAS INVERNOSOS EM QUE O VENTO UIVAVA LÁ NO FUNDO... amedrontados os GAIATOS, não saiam à rua.
Nesses dias Escuros, a RUA PERMANECIA VAZIA. Triste, só um cão abandonado, molhado passava para lá dos vidros da minha janela.
Nos outros , dos quais quero falar, a RUA NOVA foi o centro do mundo. Da RUA NOVA se chegava ao grande largo.
Manuel da Fonseca referiu nos seus escritos que o largo (nas terras do Alentejo) foi o centro do mundo. «Era o centro da Vila. Os viajantes apeavam-se da diligência e contavam novidades. Era através do Largo que o povo comunicava com o mundo. Também, à fal­ta de notícias, era aí que se inventava alguma coisa que se parecesse com a verdade. O tempo passava, e essa qualquer coisa inventada vinha a ser a verdade. Nada a destruía: tinha vindo do Largo. Assim, o Largo era o centro do mundo.»
Naquele tempo a nossa rua foi o centro do mundo, para o Rossio íamos descansar e contar as façanhas do dia. Naquelas noites sem LUA, as estrelas foram testemunhas do entusiasmo com que pintávamos todas as façanhas. Há muito muito tempo existiu uma rua cheia de GAIATOS, de sorrisos e VIZINHOS. Como são importantes os vizinhos. UMA RIQUEZA!
O Forno dividia a rua ao meio-do lado esquerdo, todas as casas tinham umas portas que as ligavam.
Consta que a rua foi mandada "FAZER" por um homem rico para as famílias dos seus trabalhadores. Rua Dr.Teles de Matos. O POVO batizou-a de Rua Nova.
NA MINHA RUA NASCIAM FLORES
GAIATOS FILHOS DA SORTE E da LIBERDADE
SE ME ESCAPAR ALGUM, RECORDEM-ME (!)
ESTA TAMBÉM É UMA ESCRITA A MUITAS MÃOS E ALGUNS CORAÇÕES A BOMBAREM.
DO SABINO REZA A HISTÓRIA, O PRIMEIRO FRIGORÍFICO DA RUA NOVA. Nunca teve filhos mas aturava os filhos dos outros. Nita e QUESI (filhas da cabeleireira-Mariana e Lucrécia). Ana Maria filha do Sodó e da senhora Joaninha. Fernando meu primo (isto os mais novos, os grandes lembro-me de todos mas não são para aqui chamados). Chico da Lebre e irmã Fátima . Tólho do Angelino, Bia e Nárinha filhos do Angelino. Tózé e a irmã filhos da Biaurora e do Consolado. Nelson e Lino do António do Paixão eram gaiatos ainda não nascidos mas que iriam ainda ver-nos crescer. Tónhu, Zé e Laroca filhos do João do Zézica. Fátima do Crujo. Varelas, Vitalina , Zé e a Esmeralda. Barroso e a irmã Rosalina. Quimino, Bonanza, Joquim Manél e a irmã pequenina Cristina nascida mais tarde. Marinita , Catróia e Chico da Horta do Monte. Faragaiata e irmã que vinham da Rua de Borba mas que alinhavam com a malta. Assim como o Quim da Alzira e o Ferrador. Daniel Cabrito vinha das Tapadas e tinha «jeitoprónegócio.»
Todas estas vivências e a paz terminaram no 25 de Abril de 1974. Dizem que chegou a Liberdade. Dizem também e deixaram escrito que a máxima:
 
DEUS
PÁTRIA
FAMÍLIA
(SEGURANÇA!!)
 
...do Estado Novo tinha chegado ao fim.AGORA SERIAMOS TODOS IGUAIS(que chatice, já imaginaram todos pensássemos da mesma maneira??) Porém não me avisaram que a nossa rua iria ser um "ESTALEIRO" , estacionamento de carros. Não nasceriam mais flores, as portas estariam fechadas e os GAIATOS cresceriam na sombra das suas casas.
Se me dissessem que iria acontecer desta forma, não acreditaria.
Aquela Rua que ontem percorri, poderá ser mais moderna, «composta de CONTEMPORANEIDADE», definitivamente não É A RUA NOVA onde vivi um dia, onde contávamos as ESTRELAS.
-NÃO FAÇAS ISSO! CRESCEM-TE CRAVOS NOS DEDOS.
Rua NOVA, onde fomos realmente FELIZES. Foi debaixo dos telhados da minha rua e das outras ruas da freguesia, que aconteceram os feitos, as glórias e as misérias que fizeram de nós HISTÓRIA, a história de um povo que serviu de bandeja com a força do seu trabalho e suor. A estas novas gerações as "latas" que decoram toda a freguesia.
O largo existia para descansarmos. E planearmos novas aventuras.
Na minha Rua todos os sonhos foram possíveis- EU SOU A PROVA de TAL FEITO! ELA Já não existe, a rua desta EVOCAÇÃO. 
 
 
TRIBUTO!
( Esta viagem da memória é dedicada aos "Angelinos" e especialmente à SENHORA MINERVINA, que hoje está passando dias difíceis (URRA-Portalegre) a quem devo muitas e boas recordações. O apoio ao meu Pai na última travessia da vida, com ele e por ele.)
E a todos os que já não estão entre nós-VITALINA-BARROSO-FERRADOR-CATRÓIA e IRMÃ do FARAGAITA.
(...as 7 vidas de um PISTOLEIRO-EPISÓDIO 2-Gaiatos filhos da puta!)
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16abr23//NA MINHA RUA OUTRORA

 









Idália Galrito
Que bom ler estas memórias, Álvaro ! Voltei a ser criança por uns instantes e reconheci todos os lugares e as pessoas, apesar de nunca residir nos Arcos. Conhecia todos os recantos.
É a minha terra, onde residiam os meus avós e quase toda a minha família e onde costumava passar muitos dias da minha meninice e adolescência. Também estive lá na escola com a D. Ângela e D. Vitória e a D. Maria do Céu Banha, esta na escola dos rapazes.
(Trabalhei/ajudei) no Zé do Rato a aviar as 125 g e 250 g de açúcar, do arroz, da massa etc. Hoje, quase não conheço ninguém, apenas a minha família que lá continua.
É muito bom reviver tudo isto! Um beijinho e continua.
 
Carlos Silva
 
 
Caro amigo,
Artista de plena liberdade…
Arcoense de gema, alma e coração…
Também eu, ontem, passei pela tua rua,
Pela tua “RUA NOVA”,
Agora velha, Rua Nova!
Tal como passei pela minha,
Como ultimamente tenho feito,
Quase todos os dias para recordar e reviver…
Agora que tenho tempo…
Agora que tenho todo o tempo do mundo!
Acompanhado pela criança
Que outrora por ali mil vezes passara,
Pensei que a podia reencontrar,
Tal como pensei que poderia reencontrar-te, a ti,
Ou a criança, não sei…
Na realidade,
Era-me indiferente encontrar um ou outro!
Acabaria por não encontrar nem um nem outro,
Tal como não encontrei os “gaiatos”, nem as demais pessoas
Da tua história…
Aliás, nem as da minha história encontrei!
A maioria terá partido...
Deixando para trás aquele vazio que viste e sentiste…
Portados de mármore gastos de tanto uso…
Casas outrora cheias, agora vazias e abandonadas…
Cheias de tudo e de nada!
Claro que ainda estão bem vivas
Na tua memória,
Na minha memória,
Em todas as memórias que as viveram!
Todas!
Desde o princípio da rua…
Passando pela barbearia do Pecuré,
Pela sapataria do pai do Armário, o “Tisapatêro”,
Ou pelo café do Sodó, onde ia pela mão do meu pai,
Até à fonte das bicas para matar a sede.
 
(2)
Se a “RUA NOVA”
Era o “centro do mundo”…
Então o que dizer do Bairro do Carrascal?
O tal bairro da Escola, pegado com a parede da “minha casa”
De onde bastava um salto da cama para lá entrar!
Quantas vezes a minha mãe não me disse:
Carlos, despacha-te!... Já estão a entrar para a escola!
Ui!... tantas vezes!
Tantas vezes a professora Maria do Céu me avisou
Que tinha que chegar a horas!
Eu que morava ali mesmo pegado!
Então o que dizer do Largo da Rosada,
Ali mesmo ao lado,
Onde os fins de tarde se prolongavam pela noite dentro
A jogar à bola com o Zé, o Rui, o Cristóvão, o Jorge, o Nuno…
E tantos outros que ocasionalmente iam aparecendo?
Ali sim, era o centro dos Arcos!
Ali sim era o “centro do mundo”!
Sim, porque o Rossio,
Esse só à noite era frequentado,
Até altas horas da madrugada…
E mais não digo…
Porque as atividades lúdicas por lá desenvolvidas,
Ficarão no “segredo dos deuses” …
É melhor ficarem como ficaram…
Perdidas no tempo, ao destempo,
Como se não tivessem existido.
 
 
3)
Desculpa lá,
Mas não concordo que a loja do “Pexóca”
Ficava “nos confins da terra”!
Porque era precisamente ali em frente,
Na carpintaria do Almeirim,
Que se faziam as célebres matinés de verão,
Com o tal gira-discos
Que ainda hoje a minha mãe guarda religiosamente.
As emoções daquelas quentes matinés de verão,
Que começavam com muita música e animação…
E acabavam quase sempre com a muita emoção,
Muitos “slows” praticamente parados…
Afinal, não era sempre que se podia dançar desafogadamente,
Sem a presença dos papás.
Recordo-me perfeitamente do 25 de abril de 1974!
Foi todo o dia a jogar à bola!
Não me importavam os cravos ou as rosas…
Não sabia o que era realmente a Liberdade…
Mas era plenamente livre!
Sobretudo nesse dia, porque não houve aulas!
Mais do que plenamente livre…
Era plenamente feliz!
Nessa altura todos os sonhos eram possíveis!
Na realidade tu és prova disso!
Tal como eu!
Que os tornei realidade!


Natividade Oliveira
Iniciei hoje o 3 Período pedindo à.turma que tive ao 1 tempo da manhã que me dissessem qual era coisa que eles era mais bela na vida e que partilhassem com todos as respostas: Foram várias e diversas as opiniões. Houve mesmo quem dissesse que era muito difícil a minha pergunta, que não conseguia responder. Disse- lhe que não se preocupasse que eu própria também senti essa dificuldade mas graças ao teu texto tinha chegado.à resposta. A turma em coro pediu- me que partilhasse com eles. Eu respondi simplesmente: MEMÓRIA.
 
Natividade Oliveira
Grande silêncio pairou na sala
Nesse momento eu.expliquei-lhes que através dela revivemos factos e sabores
Li pausadamente o teu texto. E disse- lhes que nesta mesma rua, a rua nova, lá mesmo ao fundo havia um largo. A ultima casa do lado esquerdo tinha apenas
dois compartimentos: no primeiro havia uma lareira onde faziam lume de chão e cozinhavam. No segundo compartimento o mobiliário era apenas 3 mesas compridas, dispostas em " L" e junto delas um banco comprido. Sobre as mesmas uma toalha aos quadradinhos azuis e.brancos. Disse-lhes que era nesse espaço.que funcionava a cantina das escola primária. Falei-lhes da Senhora Florinda e eles de olhar atento e curiosos por eu ter dito que para mim a coisa mais bela do mundo era a 
memória questionaram- me se me.lembrava da ementa. Parei, respirei fundo, e eis que me lembrei o que comiamos à 2 feira, 3 feira, 4 feira, quando cheguei à 5 dei comigo.a lamber os lábios. Atitude imprópria por parte de uma professora em frente a uma.turma e lembrando- me também da minha querida mãe, quando me dizia " as.meninas.bonitas não assobiam" acrescentei rapidamente sopa de grão com massa com um raminho.de hortelã. Servida numa tigela de aluminio.e à frente sobre uma fatia de pão.alentejano uma rodela de linguiça, outra de morcela e um bocadinho de toucinho cozidos. E à sexta stora? Perguntou um dos mais curiosos
Sobre o meu rosto deslizaram duas.lágrimas e.respondi:.Arroz de bacalhau. E só comiam assim sopa? questionou outra. Pois bem Alvaro o.teu.texto serviu de base a.uma verdadeira aula de cidadania. Falei- lhe.do.sistema de ensino em Portugal.nas décadas de 60 e setenta e como eramos felizes.e gratos e eles agora com manuais, kits informáticos grátis, revelam tão.pouco interesse.pela aprendizagem e passam a vida a dizer mal da comida da cantina ...
 
Albertino Russo
 
 
 Ainda bem que alguém nos dá o prazer de ver imagens e ler o nome de muitas pessoas que já não estão entre nós e que foram símbolo da minha infância,pessoas conhecidas por todos os habitantes do z'arcos , pessoas que já nem sequer me lembrava e que até parece que foi ontem que as via ,mas o tempo passa, os tempos mudam,as coisas mudam , as pessoas partem e quanto a isso não há volta a dar, agradeço de coração as imagens que tenho visto e me tem feito voltar atrás no tempo , eu que sou 100% natural de Arcos,nascido ,batizado e casado, pois sou dos poucos ou talvez o único da minha geração que nasci ainda há antiga na Horta do Monte em 02-05-1977, tenho também como memória quando o Álvaro voltou a viver na nossa terra e deu aulas em Estremoz e ir naquela motorizada ,penso que seja uma sach lebre ,mais conhecida por joaninha. Um grande abraço aqui do z'arcos
 



 

 TRIBUTO!

 ( Esta viagem da memória é dedicada aos "Angelinos" e especialmente à SENHORA MINERVINA, que hoje está terminando os seus dias (URRA-Portalegre) a quem devo muitas boas recordações e o apoio ao meu Pai na última travessia da vida, com ele e por ele.)

E a todos os que já não estão entre nós-BARROSO-FERRADOR-CATRÓIA e IRMÃ do FARAGAITA.

 


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